E afinal, o universo

 é   feminino?

 

 

 

      A discussão, por certo, vem de longa data. E a "peleja", provavelmente, já exista desde que o homem começou a perambular por este planeta. É bem verdade que, de lá pra cá, muita coisa aconteceu: o mundo encolheu, a “pílula” apareceu, a bomba explodiu, a WEB surgiu e até o famigerado “muro”, enfim, caiu. Tudo isso assim mesmo: com inocente rima, mas sinistra aflição. É que já tivemos toda a sorte de movimentos e crises, minha gente. Muito embora nós tenhamos aprendido um bocado com a história, não obstante, ainda cometemos recorrentes equívocos. Oh, vida complicada! Oh, estranhas criaturas! Pelo visto, a questão está longe de ser resolvida...

            Tudo bem que é um homem que está a escrever esse pequeno artigo, mas isso não configura traição ou incoerência. De antemão, eu prometo a vocês: farei todo o esforço possível para conduzir o tema com elegância e imparcialidade. Agora, vejam bem: eu prometo... mas, não garanto nada! Porquanto o tema é apaixonante demais e, consequentemente, estarei sujeito a alguns “atavismos” ou “atos falhos”. Se for o caso, aceitem minhas antecipadas desculpas. Então, vejamos:

            A título de curiosidade, quero fazer um esclarecimento: o tema surgiu por conta de um livro publicado pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado de Santa Catarina. Intitula-se Estudos Feministas. E foi por acaso que eu tive acesso ao livro. É que minha mãe, Jarina Menezes, é artista plástica e fez as ilustrações do livro. Por sinal, justiça seja feita: são belíssimos desenhos. Parabéns, mãe!

            No fundo, creio, eu fui duplamente presenteado. Por minha mãe e pelo impecável texto produzido. Que maravilha! Os textos possuem incrível profundidade nas teses desenvolvidas, algo típico das produções acadêmicas que, lamentavelmente, o respeitável público desconhece. Aliás, faço aqui um protesto: por que as “universidades” permanecem de portas fechadas ao “povão”? Por que não estimulam as discussões e os intercâmbios com pessoas ávidas pelo “conhecimento”? Não quero ser inoportuno, mas, como professor, eu percebo um enorme abismo entre a produção intelectual e as ricas trocas existentes nos debates, seminários ou cursos. Ao abrir as portas, descendo do pedestal da “sabedoria”, a universidade promoveria um valioso enriquecimento intelectual e, enfim, “socializaria o conhecimento”, que hoje é trancado a sete chaves. Lamentavelmente!

            Mas... é melhor deixar isso para quem de direito. Fica a sugestão. Só me resta torcer!

            Voltemos ao livro. O primeiro estudo é de autoria de Susan Bordo e cita um trecho do livro da talentosa Simone de Beauvoir, intitulado “O segundo sexo”. Diz o fragmento escolhido: Os termos masculino e feminino só são usados simetricamente no registro formal, como nos documentos legais. Na verdade, a relação entre os dois sexos não se parece muito com aquela entre dois polos elétricos, porque o homem representa tanto o positivo quanto o neutro... enquanto a mulher representa só o negativo... Numa discussão abstrata, é irritante ouvir um homem dizer: “você pensa dessa forma porque é mulher”. Mas eu sei que minha única saída é responder: “penso assim porque é verdade”, retirando da discussão, portanto, meu eu subjetivo...

            Olha, amigos, eu não afirmaria que ela está totalmente certa, pois acho que é mais uma questão de ponto de vista. O que posso dizer é que a mulher é mais perspicaz que o homem. Inegavelmente. Isso porque, convenhamos, a mulher é capaz de “intuir”, enquanto o homem apenas “atina”. Observem bem: são detalhes sutis, porém relevantes. O pior de tudo é que tais diferenças, muitas vezes, não são percebidas pelo homem!

            Ainda segundo Simone de Beauvoir: “A mulher tem ovários, útero e essas peculiaridades a aprisionam em sua subjetividade, circunscrevem-na nos limites de sua própria natureza. Diz-se frequentemente que ela pensa com suas glândulas...” Céus, se eu lesse somente essa frase, por certo, discordaria da grande escritora. Afinal, não é apenas a “morfologia” que resume as enormes diferenças existentes entre o homem e a mulher. Certamente, não. E tampouco Simone de Beauvoir desejou limitar as diferenças a tais aspectos. Muito ao contrário, ela mergulhou em um aprofundado estudo comportamental.

            É bem possível que isso tudo tenha sido o ponto de partida para a abordagem sobre a “configuração” dos universos masculino e feminino. Contudo, eu entendo que a bendita evolução se deveu muito mais por conta dos aspectos emocionais. Já que estes, sim, determinaram as verdadeiras culturas. Reconheçamos um fato: foi a mão do “homem” que talhou a história da “mulher”. Impiedosamente. Digo isso sem temores, uma vez que o homem, por ser incapaz de incorporar a subjetividade feminina, sentiu-se impotente. Pior ainda: a história mostrou que por conta de um mecanismo reativo, o homem tratou de subjugar a mulher. Ora, não é por outro motivo que ele sempre reagiu aos movimentos feministas. Afinal, a libertação delas sempre representou para o homem uma “grande ameaça”.

            Pode parecer absurdo, mas até hoje, decorridos alguns milênios, o homem continua a temer a “emancipação feminina”. Por quê? Quem saberia explicar?

            Sem nenhuma pretensão, creio que parte da resposta possa ser dada pelo belíssimo filme Tomara que seja mulher, de Mario Monicelli. Aliás, bem ao estilo italiano, o filme nos brinda com uma rica e humorada história matriarcal.

            O texto da sinopse da contracapa da fita foi muito feliz: “O retrato de uma mulher forte, decidida e inflexível: Elena Leonardi (Liv Ullmann). Descendente de uma rica e aristocrática família, ela vive em um velho casarão de campo com suas filhas Franca e Malvina, a sobrinha Martina, a criada Fosca e a filha desta, Immacolata. Com elas também estão o velho tio Gugo (Bernard Blier) e o lavrador Paride. O marido de Elena, o conde Leonardo Torrisi (Philippe Noiret), de quem é separada, vive em Roma gastando acima de suas posses. Leornardo chega ao casarão e tenta persuadir Elena a abrir um centro termal em suas propriedades. Ela não aceita a proposta, pois isso implicaria em vender parte da propriedade para conseguir o dinheiro.

            ...Depois de pequenas vicissitudes na vida, todos voltam para o casarão: Elena, Malvina, Martina, Fosca, Claudia (Catherine Deneuve), Immacolata, tio Gugo - que escapou do hospício onde estava internado - e Franca, que abandonou o marido e agora se encontra grávida. E todos torcem para que nasça uma mulher”.

            Pois é. Temos aí uma densa e bem conduzida história. E o elenco está impecável. No entanto, eu quero ressaltar o excepcional desempenho do simpático tio Gugo (Bernard Blier). Com ele, o filme se tornou “completo”. Seguramente. Afinal, o nosso tio Gugo é uma verdadeira “figura”. Meio doidinho, meio esclerosado, sei lá mais o quê! O certo é que arranca profundas gargalhadas de todos nós e restaura o bom humor da história...

            Interessante também é a mensagem subliminar que o filme aponta: o lado escuro e maldito da corrupção masculina! É... sei bem que isso poderá “dar pano para mangas”. Mas, a bem da verdade, devemos reconhecer que este desvio está muito presente no universo masculino. E como! Bem diferente da natureza feminina, já que tais comportamentos ainda são incomuns.

            Talvez seja difícil identificar “os motivos” desse comportamento, visto que tal desvio de personalidade remonta dos primórdios tempos. Sabemos que na história da humanidade existem muitos exemplos de corrupção gravados na memória. E quase “todos” produzidos por homens... e não mulheres! Portanto, nós, homens, precisamos fazer o mea culpa. Urgentemente. Mais do que isso: precisamos “aprender” as lições que as mulheres têm a nos oferecer. Com ou sem subjetividade. Aceitando ou não a emancipação feminina. Caso contrário, meus amigos, estaremos fadados a ver o nosso mundinho entregue ao deus-dará!

            Mas... E agora? Como é que a "coisa" vai ficar? Olha, minha gente, confesso que não consigo prever o rumo que iremos tomar. Aliás, no momento, a única coisa que eu sei é que na próxima semana teremos eleição para síndico aqui no condomínio. Ah! Só vendo o estado lastimável que se encontra o prédio. E, juro a vocês, após toda essa discussão acima eu guardo apenas uma certeza: tomara que seja mulher!