O  complicado
discurso  amoroso

 

 

"Ao longo da vida amorosa, as figuras surgem na cabeça do sujeito apaixonado sem nenhuma ordem, porque dependem cada vez de um acaso. A cada um desses incidentes, o enamorado retira figuras de reserva de acordo com as carências, as injunções ou os prazeres do seu imaginário".   (Roland  Barthes, em  Fragmentos  de  um  discurso  amoroso)

 

Desde que o homem passou a habitar este maravilhoso planeta, os desafios têm surgido quase na mesma proporção em que ele os vence. Talvez seja essa a sua missão. Talvez, não. Verdade é que o homem tem encarado lutas e desafios como uma espécie de “provação”. É preciso, pois, reconhecer que em suas infindáveis conquistas o homem vem escrevendo a história da humanidade com determinação e coragem, apesar de alguns tropeços.

No entanto, há um aspecto que tem sido seu verdadeiro “calcanhar de Aquiles”: o relacionamento amoroso. Aí, convenhamos, minha gente, a batalha tem-se mostrado difícil. Muito difícil! As razões para isso são muitas e bastante variáveis. Eu até poderia discorrer sobre alguns desses “motivos”. Todavia, devo confessar: seria uma tarefa muito “complicada”, porquanto, de alguma forma, eu me percebo constrangido ou mesmo quase impedido, na medida em que ainda me sinto portador de muitas dessas dificuldades. Aliás, Erich Fromm já dizia: “O homem moderno é solitário, tem medo e pequena capacidade para amar”. É... é uma pena... Afinal, nós temos perdido ótimas oportunidades!

No âmbito das relações amorosas, nós devemos reconhecer que a mulher cresceu muito mais e se tornou bem mais madura. Ela evoluiu porque se libertou da condição de “mulher-objeto” ou “mulher-vítima” e foi à luta, logrando-se vitoriosa! Quanto ao homem, com raras exceções, ele ainda permanece atrelado ao secular “machismo” e não está sendo capaz de observar as transformações da sociedade. Prefere manter-se em sua deteriorada posição de “provedor”, fechando os olhos à emancipação feminina. Dessa forma, ele se manifesta  despreparado e impotente para modificar o quadro em que se encontra. O que se observa é que o homem se sente inseguro e temeroso de rever suas posições. Por isso, ele haverá de percorrer uma longa jornada. Caminho esse que, pelo visto, precisará empreender com humildade e determinação, se desejar estabelecer  “paridade” em suas futuras relações amorosas. Como se diz por aí: ele agora vai ter que “remar” um bocado!

Segundo a psicóloga Maria de Melo Azevedo, “é a mulher que tem mais condições de apontar saídas. Mas ela terá que ser tão grande que não precise pisar o homem para se manter de pé. O homem não foi capaz disso. Dominou e subjugou. Prova de que não se sentia capaz de competir lado a lado”. Evidentemente, trata-se de uma visão feminina (e quase feminista) da questão, mas não deixa de estar correta. Profundamente. É que nós, homens, “paralisamos” a nossa evolução e, com isso, nos tornamos emocionalmente imaturos. Sim, é verdade! Nós estacionamos no tempo e no espaço, feito um barco naufragado... Como consequência, nós acabamos desenvolvendo uma enorme “perda” na capacidade de estabelecer parcerias saudáveis. Portanto, para podermos crescer dentro e fora da relação amorosa, nós precisaremos abrir mão do renitente “orgulho masculino”. Pois, só assim, abandonando esta “puberdade” afetiva, nós teremos alguma chance, meus amigos...  

O filme Todos dizem eu te amo é primoroso e se presta perfeitamente ao tema “relação homem-mulher”. A bem da verdade, isso não é novidade na vasta obra de Woody Allen. A metade dela, por certo, é dedicada a essa temática, tão presente e, ao mesmo tempo, tão “frágil”. Quem não se lembra, por exemplo, do filme Annie Hall (acho que por aqui foi intitulado “Noivo neurótico, noiva nervosa”), no qual Woody Allen satiriza as relações amorosas, sempre com aquela abordagem bem humorada? Reconheçamos: em Annie Hall, Woody revela as neuroses urbanas e escancara as nossas dificuldades afetivas. Ele foi impiedoso, sem dúvida alguma... mas, impecável! 

Curiosamente, a linguagem amorosa possui códigos próprios e somente o sujeito enamorado consegue decifrá-los. É bem possível que exista aí um vocabulário “criado” e “mantido” para alimentar essa linguagem. Linguagem que se perpetua, pelo visto, a despeito de tudo e de todos. Percebe-se que, cercando o objeto do desejo, há um invólucro quase impenetrável que distancia o sujeito apaixonado de qualquer compreensão real. Furtivamente, nós ficamos “siderados”. E a partir daí não conseguimos mais “enxergar” o outro. Sim! O outro com quem nos relacionamos, pois somos tomados por uma incompreensível “cegueira”. E ao que tudo indica, nós conseguimos ver apenas a nossa própria imagem: refletida ou projetada. Tão somente!

            Em Todos dizem eu te amo, Woody Allen não aborda apenas a relação amorosa. Bem mais do que isso, no fundo, ele a homenageia. Incessantemente. E de todas as formas, meus amigos. Para tanto, ele construiu  mais do que  um  belo musical no estilo dos anos 30. Se observarmos bem, construiu  uma  hilária comédia em cima de um denso drama. Com rara técnica e emoção, Allen debruçou o seu olhar sobre a alma humana, retirando dela todas as inquietações e desejos. E, principalmente, embutiu nesse olhar uma profunda declaração de amor ao cinema. O que constatamos é que seus personagens são quase “reais”, na medida em que nos identificamos com cada um deles... todos eles! Estão bem representados nas rixas entre o pai democrata e o filho republicano. Nas cômicas sandices do caricaturado avô. Ou nas volúveis oscilações amorosas das filhas de Joe Berlin (personagem de Woody Allen). Por isso, nós torcemos apaixonadamente por Joe. Atrapalhado, como sempre, projetamos em Joe a esperança de que “alguém” possa encontrar a “cara metade” e ser feliz. Afigura-se, então, como nosso verdadeiro “herói”, a despeito de tudo!

            Nesse particular, é interessante perceber que há no ser humano um espírito altamente solidário, tácito, presente muito mais nos “desencontros”. Vocês já se deram conta do número de vezes em que somos chamados para servir de “ombro-amigo”? Muitas, não?! Ainda que a recíproca nem sempre seja verdadeira, uma vez que raramente nos convidam para celebrar “encontros”! Quem sabe não exista aí um intuitivo mecanismo de salvaguarda? Sim, uma espécie de “confraria afetiva”, talvez inconsciente, na qual os “sócios” repartem os prejuízos e sonegam os lucros...

De um jeito ou de outro, o que sei é que até hoje tenho guardado na memória afetiva o maravilhoso final do filme Annie Hall. Lembram? Depois de idas e vindas na relação amorosa com Annie (personagem da extraordinária Diane Keaton), Alvy Singer (personagem de Woody Allen), já em desespero, vai ao psicanalista. Lá chegando, ele declara que seu irmão enlouquecera, pois achava que era uma galinha. O terapeuta contesta e diz que isso é fácil refutar. Rapidamente, ele provaria que o irmão não é uma galinha. E Alvy, prontamente, retruca: “Ué, mas se ele não é uma galinha, então, o que farei sem os ovos?” Moral da história, na própria visão de Woody Allen: “...as relações amorosas são assim mesmo: estranhas, contraditórias e, por vezes, até absurdas... mas, o que fazer sem elas”?

 Bem... por certo eu não saberia predizer o futuro das nossas relações amorosas. Quem sou eu?! Todavia, após assistir ao impecável filme, a única convicção que passei a ter é quanto ao título dado. Sim, meus amigos, eu acredito que seria  mais justo e adequado se ele fosse intitulado: Todos deveriam dizer: eu amo!