Em  ritmo

de  jazz

 

 

            “Era uma vez um menino chamado Carlos. Ele vivia em um planeta muito muito distante na nossa galáxia...”

Ah, meus amigos, como eu sinto saudades desse acalento, dessa fantasia. Como ela representa algo mágico no universo de uma criança. Sem dúvida alguma, esta frase inicia qualquer bela história e, afortunadamente, ela já embalou o “sonho” de muita gente nessa vida.

No íntimo, eu acredito até que muitas “carências” presentes nos adultos, se observadas com acuidade, originaram-se dos vazios gerados pelas “histórias” não contadas. Isto porque, convenhamos, há um aspecto que é extremamente importante na formação do indivíduo: o fato de que a capacidade imaginativa de uma criatura desenvolve-se a partir das fantasias da infância. Tanto isto é verdade que a psicanálise acabou “adotando” este ritual. Ou seja: no curso do longo e penoso processo terapêutico, nós somos incentivados a “recontar” as nossas “histórias”. No entanto, cá entre nós: quando adultos, isso dói um bocado!

Verdade é que não ouvi, na minha infância, histórias contadas por meu pai e minha mãe. Um pecado. Muito embora eu lamente esta ausência, no fundo, não chego a culpá-los por isso, porquanto família numerosa é algo complicado. Normalmente, os pais têm que repartir o pouco tempo que sobra com os “rebentos”. E no nosso caso, éramos (somos) seis. Ainda assim, devo confessar: quantas vezes eu desejei estar “doente”, só para vê-los sentarem-se ao lado da cama e, acarinhando-me, contarem um daqueles incríveis “causos” que parecem não ter fim?!

Bem... o que sei é que a vida seguiu o rumo que pôde. E hoje, vejam só, sou eu que conto histórias. Por certo, não são aquelas de “cavaleiros e heróis” que salvam as princesas nos castelos invadidos. Eu tenho me esforçado para contar algumas histórias interessantes, que têm na minha química o pano de fundo. É que sou professor há mais de trinta anos. E venho convivendo com sucessivas gerações de adolescentes. Aliás, devo dizer: isso tem sido o melhor de tudo!

Há quem afirme que a adolescência é a fase mais difícil na vida das criaturas, uma vez que é o período de formação da pessoa. É a fase da construção do caráter e da personalidade. Lá, isso é verdade. Talvez, por isso, eu tenha me “identificado” com eles, os jovens, e até hoje esteja renovando antigas utopias. É o tal negócio: os jovens sempre me encantaram. Seja por suas inocentes demonstrações de afeto, seja pela franqueza dos gestos e palavras. O certo é que os jovens são muito interessantes. E se forem bem acompanhados, podem produzir excelentes criaturas. Dessas cuja formação a gente sente profundo orgulho em participar. Aliás, desses jovens sairão os grandes cidadãos que este país que tanto carece. Afinal, para se tornarem adultos “capazes”, eles terão que encarar toda sorte de desafios.

Outro aspecto é que após tantos anos dando aulas, eu posso testemunhar algo importante: muitas vezes falta estrutura “familiar” a esses meninos! Sim, minha gente, digo isso porquanto é fácil observar que diversos pais estão omissos na vida deles. Indesculpavelmente. Pior ainda: os pais têm delegado às escolas e aos professores o papel que lhes cabem na educação dos filhos. Chego a pensar que tal comportamento, aliado a alguns outros fatores, tem contribuído um bocado para parte da violência que vemos em muitos deles. Mas... Opa! É melhor deixar isso para os psicólogos e pedagogos. Na realidade, eles é que são as “autoridades” do polêmico assunto.

O interessante é que comecei a escrever pensando em “jazz” e, de repente, brotaram algumas digressões. É... Quem sabe seja apenas “mania” de professor? Se for o caso, então, perdoem-me o “lapso”. Mas, no fundo, acho que não foi à toa. É que falar de jazz, de certo modo, é o mesmo que falar da alma humana. Talvez por isso, juventude e educação apareçam na minha cabecinha cearense de forma tão incontida. Por sinal, já se disse por aí que cearense é, antes de tudo, um sobrevivente. E algumas vezes, ele sobrevive até por “teimosia”... Portanto, deixe-me empunhar esse “espírito nordestino” e dar tratos ao tema desse artigo: jazz.

O filme em questão é Por volta da meia-noite, de Bertrand Tavenier (o mesmo diretor do extraordinário filme, Um sonho de domingo). Belíssimo, é o mínimo que se pode dizer! O filme foi dedicado e inspirado em duas grandes lendas do jazz: o pianista Bud Powell e o saxofonista Lester Young. Para construir o enredo, Tavernier convidou músicos de fato para desempenharem os papéis. Sendo assim, ele contou com o talento do saxofonista Dexter Gordon no papel principal (aliás, ele se saiu tão bem como ator que foi, inclusive, indicado para o Oscar). Contou, também, com o surpreendente desempenho artístico de Herbie Hancock (como músico, ele é o mais famoso pianista da atualidade), além da grande surpresa do filme: revelar o talento de François Cluzet no papel coadjuvante. Devo reconhecer: Cluzet, em muitos momentos, rouba as cenas do filme, pois consegue brilhantemente encarnar o papel do ardoroso fã!

Esse é um daqueles filmes que a gente fica torcendo para não acabar ou, quando muito, ficamos escondidos no cantinho da sala de projeção, fingindo estar dormindo, só para que o fiscal não nos expulse.

Seguramente, o meu aparelho de DVD se deliciou nas tantas vezes que deixei tocar esse disco em seus leitores óticos. Não é para menos... A começar pela música de abertura, ‘Round midnight, na qual Bobby McFerrin nos faz afundar na poltrona e relaxar até o último músculo “renitente”. Olha, minha gente, é um verdadeiro primor de interpretação. Bobby parece ter uma orquestra inteira na abençoada garganta. Maravilha!

A história que se segue revela o quanto a música é capaz de seduzir as criaturas. Revela as qualidades mais bonitas que pode haver no ser humano. Generosidade e solidariedade são algumas que o filme focaliza. E foram esses os atributos que desencadearam a comovente amizade entre o músico e o fã. Convenhamos: quantos de nós já não sonhamos em poder “cuidar” de pessoas como Billie Holiday ou Chet Baker? Como se fossemos os verdadeiros anjos da guarda a zelar por sua criancinha?! Eles bem que mereciam, não acham?

A natureza do homem pode ter lá suas “esquisitices”. Pode ter desenvolvido alguma “falha nossa”, quando nos deparamos, aqui e acolá, com verdadeiros fios desencapados. Paciência! A sorte é que temos algumas contrapartidas. Não sei se em bom número, mas em qualidade, ah, isso sim! Graças ao bom Senhor, há muita gente talentosa por aí. Há muita beleza derramada na vida. Como diria o artista Walter Wendhausen: “O mundo está aí, com tudo que tem de belo para ser visto: basta saber olhar”. E o jovem Francis Borier (personagem de François Cluzet) vislumbrou  tudo  isso na figura de Dale  Turner  (personagem de Dexter Gordon), quando emocionadamente confessa: sua música mudou a minha vida! Meu Deus do Céu, agora sou eu que pergunto: quantas músicas mais serão necessárias para que possamos mudar as nossas? Quantas?

Por sorte ou “destino”, Francis descobre que a esperança que ele tanto buscara na vida se realizaria movida pela beleza da música de Dale. E ele tinha razão, amigos. Então, façamos como ele. Façamos como Drummond: “criemos belezas, dando a poucos um resto de esperança”.

            Contudo, vejam como são as coisas: somente agora é que me dei conta do motivo de ter iniciado o artigo falando em histórias da infância. É que me lembrei das músicas que ouvia da sala de som do meu pai. Em geral, eram músicas eruditas. Mas, algumas vezes... ai, que beleza, jorrava o velho e bom jazz. Soava por toda a casa. Soava como as histórias que não me foram contadas. Daí a pergunta: quem sabe não tenha sido melhor assim? Sim, pois até hoje eu tenho guardado na memória afetiva o canto triste de Billie saindo daquela velha vitrola. Coisa linda!

            Obrigado, meu pai.