Somos  todos
estrangeiros

 

 

Pelo visto, nem mesmo Camus ou Kafka, os mestres do absurdo, conseguiriam imaginar tal história. E olha que eles não foram os únicos que se sentiram “estrangeiros” nesse conturbado mundo. É o tal negócio: no fundo, há sempre um pouco desse sentimento presente em cada um de nós. Isto porque, convenhamos, quase todos nós já nos deparamos com situações profundamente “conflitantes”. Ainda que sejam repudiadas, devemos reconhecer que elas fazem parte da trajetória da gente. Afinal, quem não se sentiu perdido, injustiçado e sem perspectivas em algum momento da vida? Quem não experimentou fortes dores ao longo do percurso e, muitas vezes, provou o “pão que o diabo amassou”? Como se as razões extinguissem o bom senso e traíssem qualquer noção de humanismo. Como se o “absurdo” valesse bem mais do que tudo!

            Terá acontecido algo semelhante ao jovem americano - que experimentou uma impiedosa condenação de 30 anos de prisão na Turquia - ao ser apanhado com haxixe no embarque para os EUA? Bem... assista ao impecável filme O expresso da meia-noite e somente depois responda.

            Verdade mesmo é que muitos pensadores já se reconheceram encurralados pelo mundo “normal”. E por certo, eles já devem ter se sentido “impotentes” diante dos acontecimentos da vida. Paciência! Fazer o quê?! Bertolt Brecht, por exemplo, foi um que declarou: “Eu vivo num tempo sombrio. / A inocente palavra é um despropósito. / Uma fonte sem ruga denota insensibilidade. / Quem está rindo é porque não recebeu ainda a terrível notícia!” Será isso loucura? Será absurdo? Nem sempre, minha gente... nem sempre!

            Rainer Maria Rilke também se deparou com tais emoções. Em Cartas a um jovem poeta, ele nos aconselhava: “... mas não se importe. Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. O que é preciso é caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém – é a isto que é preciso chegar”. Pois é. Nós até podemos acalentar esse conselho, contudo, é extremamente complicado pôr em prática, não acham?!

            O que sei dizer é que essas utopias poderão encontrar - aqui ou acolá - alguns seguidores, pois há todo tipo de gente nesse mundão de Deus. Entretanto, devo declarar: eu prefiro o “contato humano”. Sem sombra de dúvida. Porquanto somente ele é capaz de nos proporcionar a troca de emoções. Troca essa que “colhemos” ao nos “relacionar” com o outro. Pura magia. É bem verdade que isso é algo “complicado” e, por vezes, impossível de alcançar. Apesar disso, eu acredito que o sentido maior da nossa existência esteja na “relação humana”. Lá, isso é verdade!

Também é certo que algumas relações conseguem ser bastante contraditórias e algumas, até “doentes”. Chegam a incomodar! Mas, o que fazer sem elas, minha gente? Por isso, eu prefiro ver as coisas por outro ângulo. E dessa forma, concordo com a excelente dramaturga, Maria Adelaide Amaral, quando diz: “... mas vou continuar de braços abertos porque, apesar da dor, do desencontro que tenho experimentado nas minhas relações afetivas, continuo a acreditar que o amor é a única coisa capaz de me salvar...”

            Certa vez ao assistir a um programa de numa emissora de TV, eu percebi que o sentido da vida (da minha, ao menos) fora ali revelado. Deixe-me explicar. Na realidade, tratava-se de um programa de entrevistas e o convidado especial era o ator Juca de Oliveira. Pois muito bem. A entrevista seguia e, em dado momento, ele foi indagado sobre a técnica que usava nos palcos para “driblar” as dificuldades cotidianas em favor da personagem. Com muita sabedoria, Juca declarou: “realmente, nós utilizamos certos truques quando percebemos que não “vestimos” por inteiro a personagem. Eu, por exemplo, quando me flagro nessa situação, sou tomado por um forte desassossego. E assim, busco na platéia, desesperadamente, um rosto que me seja profundamente terno e familiar. Geralmente, eu acabo encontrando este rosto numa velhinha de “cabelos brancos”, sentada logo nas primeiras filas. Aí, então, começo a desempenhar os primeiros dez ou quinze minutos da peça com o olhar voltado apenas para “ela”. Invariavelmente, o que tem acontecido é que “ela” percebe e, com isso, me devolve sob a forma de um intenso brilho nos olhos ou um doce sorriso estampado no rosto toda a emoção vivida. Como consequência, eu fico tão comovido que, quando me dou conta, já incorporei “a personagem” e o restante da peça é, enfim, ofertado a todos”. Moral da história, minha gente: todos nós, de alguma maneira, precisamos encontrar em tudo o que fazemos “aquela” velhinha de cabelos brancos, para darmos sentido a vida. Irremediavelmente.

            Tá bom, Carlos... mas, e o filme? Céus, queiram me desculpar. Algumas vezes, sei bem, eu “viajo” demais nos pensamentos. É que eu fico tomado por lembranças que me fazem refletir... Ou, quem sabe, neste momento eu esteja “possuído” pelo espírito do poeta Mário Quintana e justifique: O remédio é cantar. / Cantar cantigas loucas e sem fim... / sem fim e sem sentido... / dessas que a gente inventa para enganar a solidão dos caminhos sem lua.

            O que eu posso afirmar a vocês é que a história do filme é belíssima e foi baseada em um caso real, ocorrido com um estudante norte-americano. O roteiro do diretor Oliver Stone, ganhador do Oscar, conseguiu dar a medida das violências, torturas e os interrogatórios cruéis de que foi “vítima” o estudante. Com extraordinária sensibilidade, Oliver Stone penetrou na profunda desesperança em que mergulhara o jovem e conseguiu extrair dos personagens o “lado negro” de suas almas conflitadas. Em contrapartida, para a nossa sorte, ele foi recompensado com a brilhante estreia de Brad Davis e pelo magnífico desempenho de John Hurt. No meu entendimento, os dois atores mereciam ganhar o Oscar. Lá, isso sim!

            O processo desencadeado a partir da prisão do estudante não se compara, decerto, com O Processo - vivido por Josef K., de Franz Kafka. Não obstante, nós podemos observar idêntica degradação a que um homem pode ser submetido. Degradação essa, meus amigos, que nenhuma criatura desse mundo merece viver, por mais “abominável” que ela possa ser... E esta degradação foi muito bem representada na cena da marcha “silenciosa e louca” dentro do pátio interno da cadeia. É uma cena forte e angustiante, sem dúvida, mas impecável. Estarrecidos, vemos os presos caminhando “conformados” em um labirinto asfixiante. Com passos lentos, eles caminham sem nenhum motivo. Sem sentido algum. Simplesmente, caminham. Como se estivessem “Esperando Godot”... Meu Deus, por que “sempre pela direita?”

            Muito embora o filme esteja completando 20 anos, com lançamento em DVD, o que se percebe é que a linguagem adotada - texto, fotografia e roteiro - permanece extremamente atual. Por sinal, são raros os filmes antigos a que conseguimos assistir com igual prazer (ou dor!) vinte anos depois. É bem o caso do O expresso da meia-noite. Impiedosamente, ele se revela incisivo e corajoso, à medida que aborda uma história absurda e desumana, bastante presente em nossos dias. Talvez por isso, ele acabou se tornando um filme “emblemático”, capaz de seduzir e agradar a quase todos. Ao menos, os que se deixam emocionar!

            Sabemos que a história da humanidade está repleta de exemplos de violências e castigos impostos aos semelhantes. Perversamente, quase todos são movidos por ódios ou fanatismos, ou seja, aqueles velhos e equivocados sentimentos que reduzem o “homem” a uma condição quase primitiva...

A despeito de tudo, eu sou um otimista incorrigível e conservo fortes esperanças na vida e no homem. Sim, minha gente! Apesar dos pesares, eu continuo a acreditar no “homem”, porque acredito na “arte” que está nele. E por sorte, arte é o que não falta nesse belíssimo filme!

            Em momentos como esse, em que chegamos a duvidar do bom senso e quase perdermos as esperanças no homem, eu me lembro, então, de Alexander Solzhenitsyn: “Seus relógios estão atrasados. Fechem as cortinas de que tanto gostam, pois vocês sequer suspeitam que lá fora existe a luz do sol.”