Muito  além
da  paixão

 


 

                Muito já foi dito sobre o amor. Sei bem. Pode até ser que o tema não careça mais abordagem. Mas, convenhamos: há amores de todos os tipos, minha gente!

            Não obstante toda forma de amor ser bela e comovente, no fundo, sempre haverá uma “especial”. Marcante. Inusitada. Isso porque a capacidade de o homem estabelecer diferentes afetos parece ser inesgotável. Ainda bem, pois assim, quando menos se espera, eis que surge uma outra maneira de “ver” e “viver” o amor. Quem sabe não resida aí a grande beleza dessa vida? Sim, na incrível diversidade do amor!

            A bem da verdade, devemos reconhecer, o uso da palavra “amor” acabou sendo banalizado. Lamentavelmente. Porquanto a frequência com que a palavra é utilizada, muitas vezes torna o amor um aparente despropósito. Seja pela fugacidade com que ele, repentinamente, vem e se vai. Seja pela ausência de compromisso com o real sentimento presente, uma vez que seguidamente se confunde amor com “posse”. O que sei dizer, amigos, é que parece que estamos tratando o amor de forma indevida. Descuidada. Confusa, até.

            É sabido que diversas gerações atravessaram fortes correntezas em busca da cara-metade. Por conta disso, desafios tiveram que ser vencidos com uma coragem ímpar. E o que se viu, afortunadamente, é que a determinação sempre foi a mola propulsora dos amantes. Quem sabe seja ela a única aliada da paixão?!

            Em nome do “amor”, impérios foram sacrificados, revoluções foram deflagradas e muitos mártires surgiram na história da humanidade. Algumas vezes, é verdade, estiveram escondidos em “ideologias” ou “utopias” sem fronteiras. Não importa. O certo é os exemplos estão aí: construídos com profunda garra e esparramados pelos caminhos do universo. São contundentes dramas que lutaram por um final feliz, nem sempre logrado. Quem não se lembra, por exemplo, do velho “Iona” do conto Kusmá Iônitch, de Tchecov? Depois de contar a sua tristeza pela morte do filho a várias pessoas, sem resultado, passou a falar com a sua velha égua, única companheira de todas as horas: “Assim é, meu irmão, minha egüinha... Não existe mais Kusmá Iônitch. Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Dá pena, não é verdade?”

            Ou no intenso e absurdo monólogo do Coronel com o seu galo, na novela de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel). Ao se ver acuado pela fome e pela falta de perspectiva, o Coronel encontra no galo a força necessária para permanecer lutando: “A vida é dura, camarada!”, sentenciou o exaurido homem ao galo.

            Certamente, eu ainda poderia citar dezenas de outros comoventes exemplos de amor. Só serviriam para atestar a grandeza desse sentimento que, por vezes, é cego. Outras tantas, surdo. E até mudo já foi. Bem mais do que isso, o amor já foi herói e foi bandido. Foi perseguido e celebrado. Ultrajado e invejado. Ah, o amor... Essa fantástica “caixinha de surpresas” que arrebata espíritos desavisados. Bendito, seja!

            É interessante perceber que o mito do amor tem sido mais forte do que a imaginação humana. E até mesmo Bernard Shaw, um mago na criação, preferiu homenageá-lo às avessas. Em seu antológico romance, Pigmalião, ele recria livremente o mito - o lendário rei de Chipre que se apaixona por uma estátua de marfim que ele próprio esculpira e que a Deusa do Amor acaba por dar vida. Pigmalião Higgins, no fundo, idealiza a própria mãe em vez de Eliza Doolittle. Esta, por sua vez, vê-se aprisionada diante da escolha: casar-se com o atraente Higgins para quem passaria a vida toda a procurar os chinelos ou com o repugnante Freddy que, bem ao contrário, a vida toda estaria a lhe procurar os chinelos? A escolha foi dura e muitas complicações se seguiram...

            Vimos, também, quando o velho Santiago, o pescador solitário de Hemingway (O velho e o mar) - que durante 84 dias não apanhara um só peixe - novamente põe-se no mar. O que o velho carregava no peito, minha gente, era mais do que coragem. Dentro dele e daquela solitária canoa, tinha amor. Muito amor! Sim, somente um homem com seus sonhos e suas tristezas profundas pode amar com tanta ternura um peixe. E, por conta desse amor, ele empreende bem mais do que uma luta de sobrevivência. Ao travar a longa batalha, o pescador jamais perdeu o respeito ao peixe. “Vou pôr os dois remos cruzados na proa e o peixe terá que abrandar a velocidade durante a noite”, disse o velho. “Ele deve querer descansar e eu também!”

            Tudo isso me faz crer que o verdadeiro amor é assim mesmo: respeitoso, ainda que sem cerimônias e indulgente, mas sem se culpar. Por certo, em nome da preservação, o amor é até capaz de ferir. No entanto, o perigo que sempre rondou as nossas casas está nos excessos. É que, por vezes, a “paixão” é traiçoeira e manhosa. E não poupa ninguém!  Basta olhar para os lados e veremos: quando estamos “distraídos” e somos tomados pelo “inadvertido” sentimento, tudo pode ocorrer. E a dor, inescrupulosa parceira da paixão, acaba mostrando as garras e, de alguma maneira, fazendo vítimas. É... São os “pedágios” da vida e nada pode ser feito. Tampouco se adquire imunidades quanto a isso.

            Não, meus amigos, não estou aqui a repudiar a paixão! Muito ao contrário: dela, sempre fui cúmplice e dependente. Raptado por ela? Inúmeras vezes. Arrependido? Jamais! Disposto a mais uma? Sempre!

            O que posso afirmar, sem medo, é que a grande sabedoria dessa vida talvez consista em aprender a lidar com a paixão. Permitindo que ela nos subverta, sim, mas, atento aos caminhos que trilhamos. Com isso, podemos desenvolver a capacidade necessária para “cicatrizar” antigas feridas. E, com sorte, experimentamos no percurso os mais belos dias de nossas vidas.

            Foi assim que Zhao Di, a inocente camponesa do belíssimo filme, “O caminho para casa”, entregou o seu amor ao professor Luo Changyu. Coisa linda! A relação que ela estabelece com o professor é tocante. Durante todo o filme, a linda história de amor é narrada pelo filho Yusheng. É que ao receber a notícia da morte do pai, Yusheng retorna à sua antiga aldeia e relembra o decantado romance dos pais, enquanto providencia o enterro. E ao narrar a história de amor deles, com orgulho e admiração, Yusheng consegue nos enfeitiçar. Inteiramente. Sem sobra de dúvida, não há criatura alguma nesse mundo que ao final do filme não se sinta melhor, visto que ele nos emociona e nos engrandece. Pudera! Como um bom filme oriental, ele herdou a sabedoria de não ter pressa. Com isso, as cenas se sucedem com uma impressionante placidez. Lindas. Irretocáveis. E amparado em magnífica fotografia, o enredo vai lentamente arrebatando as nossas almas sedentas de humanismo. Principalmente quando aborda o polêmico tema: a morte.

            É, minha gente, o povo ocidental tem muito que aprender com os orientais no que diz respeito à forma de encarar a morte. Chega a ser comovente o diálogo entre Yusheng e o marceneiro, quando ele diz: “Carregar os mortos é um costume antigo. E nós gritamos com ele no caminho. Sabe o que dizemos? Dizemos que aquele é o caminho para casa. Assim, ele sempre se lembrará do caminho!” Ou então, na própria voz de Yusheng, que após relutar, acaba compreendendo o pedido da mãe e justifica o sacrifício de conduzir o corpo do pai pela longa estrada: “Esta estrada faz parte da história de amor de meu pai e minha mãe: o caminho que vai da cidade até a nossa aldeia. Talvez, por causa da esperança que representava quando ela esperava a volta de meu pai, ela queira percorrê-lo ao lado dele uma última vez...” E ele tinha razão, uma vez que um amor feito aquele merecia qualquer homenagem. Até mesmo sacrifício.

            Yusheng nos diz mais sobre o amor deles: “Papai me contou que a primeira vez em que visitou minha mãe, ela ficou esperando na porta. Apoiada no batente, parecia uma pintura num quadro: uma imagem que ele jamais esqueceria!” Ou ainda: “Alguém me contou que no dia em que meu pai finalmente voltou, mamãe vestiu o casaco vermelho, o preferido de papai, e ficou esperando por ele no caminho. Desde aquele dia, meu pai nunca mais deixou a minha mãe...”

            O que sei dizer é que a história de Zhao Di e do professor Luo Changyu não é apenas uma bela história de amor. Bem mais do que isso, ela revela tudo o que fica em nossa volta: amor, paixão, dignidade e respeito. E nada mais tem importância.

            Zhao Di compreendeu tudo isso quando quis prestar ao marido a derradeira homenagem, reiterando o seu amor em meio a longa caminhada. No fundo, talvez fosse a caminhada para a grande morada espiritual: a imortalidade do amor que viveu.

            Então, só nos resta torcer para que a vida nos ensine a encarar a morte com o mesmo respeito e dignidade que o filme aponta. Com sorte, poderemos até guardar na memória onde estão os nossos caminhos. E se isso ocorrer ainda em vida, melhor ainda, pois assim evitaremos ouvir os gritos dos que nos amam!