Os   jardins

de  Tânatos

 

        

“As pessoas pensam que sou louco. Acha que eu o sou? É disso que você tem medo?”  Antonin  Artaud

           

                Ah, essemundo, mundo vasto mundo” insiste em não se ajuizar. Não demora muito e ele logo apronta alguma! Eis aí uma daquelas famigeradas frases que ouvimos de quando em quando. Dessas que nos convocam à manutenção, a qualquer custo, do juízo perfeito e da harmonia. Para muitos, no entanto, isso é pura sandice!

            É bem verdade que o conceito de juízo ou bom senso é algo bastante relativo, visto que depende da situação envolvida. O nosso estimado Caetano Veloso já nos disse que “de perto, ninguém é normal”. Isso porque, quando se está de fora, como um neutro observador, os atos e fatos da vida parecem assumir condições que enquadramos em rígidos parâmetros. De modo geral, costumamos julgar “as coisas” com base no senso comum. Até aí, tudo bem. O discernimento, seguramente, deve estar a serviço de uma vida equilibrada. Não obstante, a busca por esse equilíbrio é que constitui a grande peleja da vida. Também é verdade que o mundo não é tão perfeito como imaginamos ou desejamos. Por certo, iremos nos deparar com situações que escapam ao nosso “comando”. E quando isso ocorre, reconheçamos, é um verdadeiro “Deus nos acuda”.

            De fato, são incontáveis os momentos em que a vida nos põe frente a frente com o “crime”. Entendendo esse “crime”, é claro, apenas no sentido da perda do controle. Digo isso, minha gente, porquanto é fácil perceber a desenfreada necessidade que temos de “controlar” tudo ao nosso redor. Como se que a perda do controle significasse tão somente um atestado de incapacidade ou desespero em qualquer um de nós. Um verdadeiro sufoco!

            É interessante perceber que ao lermos um belo romance ou ao assistirmos a um denso filme, em cuja história algum personagem “destrambelha”, sentimos imediatamente “pena”! É uma reação espontânea, como um ato falho, pois logo a seguir vem: ...tadinho, ele perdeu o controle! Não é assim que acontece? É... sei bem que tudo isso é bastante complicado. Sei até que me pilho, vez por outra, “controlando” a mim ou os que me cercam. Paciência, fazer o quê? Pelo visto, os sete anos de terapia não me deram imunidades! Mas, será que precisamos controlar “as coisas” assim? E o que representa esse controle? Bem, aí é que mora o “x” do problema. E a razão deste artigo!

            Sem nenhuma cerimônia, devo confessar que tudo isso é profundamente inquietante. Para qualquer um de nós. E mais ainda: no meu entendimento, esta é a grande questão a ser respondida. Agora, se conseguimos responder corretamente, aí já são outros quinhentos... ou, como queiram, uma outra “peleja”!

            Como exemplo, tomemos o filme Ninguém escreve ao coronel, de Arturo Ripstein. Baseado na belíssima novela de Gabriel García Márquez, o filme é um retrato vivo do que começamos a abordar. Com muita propriedade, o texto da contracapa informa: “Semanas após semanas, o Coronel se veste solenemente e fica parado diante do cais aguardando a carta que anunciará a chegada de sua tão esperada pensão. Todos do vilarejo sabem que ele espera em vão, inclusive sua mulher, que há anos o vê preparar-se diante do espelho para receber a carta que nunca chega. Mas, o Coronel fecha seus olhos diante desta verdade tão evidente e se agarra ao seu sonho. Caso contrário o que lhe resta? Ninguém escreve ao Coronel é um filme tocante, adaptado do romance de Gabriel García Márquez e tem no elenco atuações extraordinárias de Fernando Luján e Marisa Paredes como o coronel e sua esposa”.

            Voltando ao tema do artigo, meus amigos. Será o Coronel um sujeito “desequilibrado”? Sua história é puramente absurda, a ponto de nos indignarmos ao assisti-la? O que ele deveria ter feito?

            Alguns poderão afirmar: meu prezado Carlos, somente o Coronel poderia dar conta do seu drama. Afinal, já se disse por aí que todo drama é sempre individual. É... Pode ser, meus amigos. Mas, basta que o nosso olhar esteja menos contaminado pelo propalado equilíbrio e perceberemos que o Coronel talvez tivesse poucas alternativas. Mais ainda: concluiremos que o “galo” do Coronel representava bem mais do que um estimado animal. Ao que tudo indica, o galo era o único daquela vila que o compreendia com exatidão. Talvez porque encarnasse o símbolo da “resistência” mantida por ele, junto ao “sistema”. Ou quem sabe o galo estabelecesse a fronteira da última utopia do Coronel e daquela gente?! O certo é que naquele vilarejo ninguém podia mais viver sem o galo. Assim como o coronel não podia viver sem as utopias, ainda que estivessem impiedosamente abaladas. Restava ao coronel, ao menos, o seu vitorioso galo de briga!

            No entanto, é interessante perceber que o galo nunca brigou com um oponente, meus amigos. Apenas com o espelho. Ainda assim, o nosso estimado coronel atribuía a ele uma força transformadora. Força capaz de redimir as muitas dores dele e daquele povo. Implicitamente, a “força” estava com o galo! Força essa que religião alguma conseguiu oferecer a contento, apesar das inúmeras seitas. E tampouco o sonho socialista foi capaz de perdurar, uma vez que se esfarelou feito biscoito velho...

            O aparente absurdo da história encontra o eco perfeito no nosso “avesso”. Batendo e rebatendo em nossos corações. Conduzindo-nos à tácita solidariedade, ainda que seja tímida. Basta recordar a dramática cena do coronel penteando o cabelo da faminta esposa. Seguramente, assemelha-se mais ao “teatro do absurdo ou da crueldade”. E foi Antonin Artaud, fiel escudeiro e representante deste, que disse: “O teatro, como a peste, é uma crise cujo desenlace é a morte ou a cura!”

            Eu não sei dizer o que nos cura, meus amigos. Tampouco o que nos mata. No entanto, desconfio que a primeira grande utopia, criada pelo homem, talvez tenha sido o Éden. O verdadeiro nirvana onde, segundo afirmam, não precisávamos fazer absolutamente nada. Tudo nos era ofertado pela mãe-gentil, a natureza. E assim, vivíamos em paz!

            Logo a seguir, veio a cobiça. E os consequentes resultados dela. O homem, então, trilhou caminhos conturbados e que promoveram diversos conflitos. Por conta disso, é bem possível que muitas crenças, misticismos e utopias tenham surgido como uma espécie de “compensação” às perdas. Tudo bem. No fundo, quem sabe, elas eram até necessárias!? Ou inerentes. Bem melhor do que ficar sentando à beira da estrada “esperando Godot”, não acham? Provavelmente, o nosso querido Coronel não leu a antológica obra de Samuel Beckett e nem ouviu falar de Antonin Artaud. Talvez tenha sido melhor. Afinal, ele encontrou a “loucura” ao seu jeito e ao seu tempo. Revelada sob a mais perfeita das condições: o sonho recorrente! Podendo, muitas vezes, parecer cruel aos que de fora observam. Apesar de tudo, devemos reconhecer, foi por intermédio dos sonhos que a humanidade encontrou muitas verdades. E por conta das utopias, o homem ainda sobrevive. Caso contrário, a vaca já teria ido para brejo há mais tempo.

            Então, minha gente, é preciso ter cuidado no trato dessas questões. É preciso não bani-las a priori, como teimosamente fazemos quando nos deparamos com o “diferente” ou com o “inusitado”. Como fez Antonin Artaud. Ele via como absurdo a ação de se defender uma cultura, quando se deveria defender a vida, particularmente quando essa cultura nunca coincidiu com a vida, sendo feita apenas para dirigir, quer dizer, sufocar a vida!

            Os “Jardins do Éden” podem ter revelado bem mais do que as “inocentes maçãs”, ainda que seja imputada à serpente a nossa primeira “loucura”. De toda a forma, com ou sem “pecado”, a loucura teve o seu lado bom. É que ao estampar os desejos inconscientes, presentes em cada um de nós, ela libertou um sem número de almas inconformadas ou diferentes. Em todos nós. Com isso, os nossos “julgamentos” se tornaram mais condescendentes e pudemos, enfim, avançar em alguns aspectos da nossa humanidade, que tantos cuidados careciam. É... no fim das contas o Coronel tinha razão ao acreditar que o galo lhe traria aquilo que a carta não anunciava: a vitória do sonho! E com sorte, melhor do ninguém, ele poria fim na miséria, na dor e no desalento: os indecorosos vizinhos do coronel.

            Nessa vida, por certo, muita gente já atestou um sonho. É bem verdade que muitos deles foram vividos apenas por quem o sonhou. Pouco importa. No fundo, o que vale é evitar os “jardins” de Tânatos. Estes, sim, são sombrios. Dão as costas aos sonhos e, implacavelmente, sentenciam o fim das utopias, determinando a morte em toda a sua extensão! Por tudo isso, eu prefiro, então, a loucura de Artaud, quando diz: “Não tenho nem teatro nem palco que não o teatro do meu inconsciente e de meu coração”.

            Se preferirem, embalado pelo sonho, Chico Buarque nos traz outra resposta:  “A novidade / Que tem no Brejo da Cruz / É a criançada se alimentar de luz / Alucinados, meninos ficando azuis... / Na rodoviária, assumem formas mil. / Uns vendem fumo, / tem uns que viram Jesus. / Muito sanfoneiro, / cego tocando blues. / Uns têm saudade e dançam maracatus. / Uns atiram pedras, / outros passeiam nus! / Mas há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem, / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem?!