Os  esconderijos

da  memória

 


 

                Vejam como são as coisas: eu precisei esperar mais de três décadas para me dar conta de um terrível engano que cometi. E digo mais, meus amigos: tomara que eu tenha me redimido, pois só assim terei feito as pazes com o meu coração. Afinal, como dizia o poeta Fernando Pessoa: tudo vale a pena se alma não é pequena. Dito isso, peço que me deixem relatar os fatos. É que, no fundo, eu acredito que vocês me compreenderão, já que têm sido testemunhas e parceiros nas minhas “expiações”.

            Na verdade, tudo começou quando assisti ao belíssimo filme Malena. Meus amigos, que filme encantador! Foi construído pelo mestre Giuseppe Tornatore, o mesmo diretor do antológico Cinema Paradiso. Ah, somente pelas mãos desse “artesão” poderíamos receber tal presente: uma viagem no imaginário da adolescência. Olha, confesso a vocês, eu mal consigo me conter, uma vez que são muitas as lembranças daquela época.

            Para início de conversa, o “pecado” tinha um nome: chamava-se Isabel. Sem dúvida alguma, ela foi a mais linda morena que os meus olhos contemplaram. Mas, para mim, ela sempre se chamou Belinha. Céus, onde estará aquela menina? Que rumo terá seguido na vida? Terá sido feliz? Meu Deus, eu daria tudo para ter notícias dela. Quem sabe poder trocar uma prosa, um sorriso ou um simples olhar? Saber se os seus sonhos se realizaram, se a vida foi generosa com ela... essas coisas que o “destino” apronta!

            O certo é que Belinha marcou para sempre a minha memória-afetiva, deixando um especial registro em meu coração. Por ironia, quis o destino que esse amor fosse interrompido pelos meus medos. Ah! Foi uma grande pena, isso sim, porquanto eu era jovem demais para saber lidar com os sonhos. E os sonhos, minha gente, também podem nos assustar. Lamentavelmente. Algumas vezes, reconheçamos, eles são capazes de nos acuar e promover profundas transformações nos caminhos da gente. Dessa forma, eles acabam selando a sorte de quem os viveu.

            Hoje, eu reconheço: fui erroneamente “bem comportado”. Talvez devesse me rebelar, romper com o mundo e queimar meus navios... No entanto, não lutei pelo afeto. Simplesmente aceitei o destino como se fosse uma sina. Sendo assim, acabei paralisado diante dos medos. E o que se sabe é que os medos são implacáveis com quem os sente. Sem remorsos ou piedade, os medos arrefecem os sonhos e tomam a desavisada criatura como refém, fazendo dela mais uma vítima. Com profundo lamento, eu declaro: foi o que me ocorreu.

            É bem verdade que eu tinha apenas 15 anos e ainda era uma criança cheia de esperanças na vida. Na escola, eu frequentava o grêmio estudantil e me iniciava na luta contra a opressão do regime, a ditadura. Eram tempos difíceis! Havia muito “medo” pairando no ar. Em cada esquina, um desafio. Em cada empreitada, um temor. E dessa forma, nós seguíamos firmes junto à “causa”, tentando tornar o mundo mais justo e humano. Procurando abrir espaços para os jovens que, como eu, acreditavam nos ideais “socialistas”. Apesar dos inúmeros fantasmas que nos rondavam, aquele período foi muito rico em vivências. Lá, isso foi!

            Naquela época, lembro bem, os militares mandavam e desmandavam nos destinos do país. Reiteradas atrocidades foram cometidas em nome da “ordem e do progresso”, lema equivocadamente furtado de nossa bandeira. Existia até um chavão: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. E se por acaso o nosso “amor” não era bem aquele que eles desejavam, então, éramos “convidados” a “deixar” o país. Muitas vezes, para sempre! Perdi diversos amigos. Alguns deles, verdade seja dita, eram somente estudantes “ingênuos” que nunca entraram no movimento, quer por medo, quer por cinismo ou mesmo divergência. Outros, caíram na clandestinidade e alguns foram até para a luta armada.

            Desafortunadamente, o pai de Belinha era um general do exército, da chamada “linha dura”. Todas as vezes que o via, eu tremia dos pés à cabeça. E ele, como que adivinhando, olhava-me sempre com suspeição ou “rancor”. Certa vez, o general nos flagrou namorando nas escadas do prédio. Nossa! Nunca desci tão rápido uma escada na vida. Eu parecia até um atleta correndo 100 metros com barreira... Que sufoco!

            Foi quando eu resolvi me afastar de Belinha, uma vez que me sentia “perseguido” pelo pai (ou, quem sabe, pelos temores que ele me desencadeava?). Contudo, foi o meu maior engano. Isto porque, um amor feito aquele não se acha duas vezes na vida, meus amigos. Seguramente.

             Bem, aí o tempo foi passando e eu cada vez mais engajado no movimento estudantil. As manifestações de rua tomavam a cidade por todos os lados. Ora ocorria uma passeata de protesto na Praça Cinelândia, ora um comício-relâmpago no restaurante universitário. Como sempre, havia muita tensão e nervosismo no ar. E nos breves encontros, aproveitávamos para obter informações sobre os companheiros “desaparecidos”.

            Até que um dia, sem nenhum aviso, Belinha mudou-se de bairro. E eu nunca mais tive notícias dela, apesar das incessantes buscas que empreendi. Num átimo, Belinha virou “passado”. Sofri muito, é verdade. Chorei por sua ausência durante bastante tempo e me culpei pela falta de coragem. Meu Deus, por que foi mais fácil lutar por uma causa do que por um afeto?! Por que sempre é mais fácil morrer por uma ideologia do que viver por um grande amor? Por quê?!

            É, minha gente, por aí vocês podem avaliar como demorei a “reencontrar” os meus afetos. Perversamente, eles se extraviaram naquele dia em que abdiquei o amor de Belinha. E o mundo teve que girar um bocado para que eu pudesse ter de volta os meus afetos perdidos. Para tanto, precisei encontrar maravilhosas criaturas no percurso. E elas, ao me ofertarem abraços, foram responsáveis por essa recuperação. De alguma forma, esta crônica é dedicada a todas as pessoas que me estenderam a mão.

            Também é verdade que precisei me comover com as belas histórias dos livros e filmes. Porquanto são capazes de revelar os sentimentos dos homens, restaurando os nossos pedaços. Felizmente, não faltaram talentos a nos brindar com extraordinárias obras. É bem o caso de Giuseppe Tornatore. Ele já nos deu o Cinema Paradiso, Estamos todos bem, Uma pura formalidade, A lenda do pianista do mar e, dessa vez, Malena.

            A história de Malena nos remete ao Cinema Paradiso, uma vez que percebemos o mesmo tema e o desejo de fazer “expiações”. Tornatore retorna às antigas vilas da Itália. E se em Cinema Paradiso a vila Giancaldo foi o palco onde brilhou o menino “Totó”, em Castelcuto temos “Renato Amoroso” conhecendo as manhas da paixão. Ambos foram acolhidos com magníficas histórias, impecáveis fotografias e a soberba trilha sonora de Ennio Morricone.

            A iniciação amorosa do menino Renato se dá em meio a Segunda Grande Guerra. Ao conhecer Malena, a belíssima musa de seus sonhos juvenis, Renato descobre bem mais do que o desejo ou a paixão: descobre a fidelidade. Por Malena, Renato foi capaz de conhecer o seu próprio corpo e aprendeu a respeitá-lo. E, precocemente, ele teve que desenvolver o sentido ético nas relações interpessoais. Sorte a dele. Sorte de Malena.

            No entanto, as frenéticas manifestações de cobiça e inveja – respectivamente, empreendidas pelos homens e as mulheres de Castelcuto - sempre andaram lado a lado de Malena. Passando por terríveis provações, Malena amargou incontáveis dores, sem nunca perder a altivez. Talvez por isso, ela tenha recebido a tácita cumplicidade e a compreensão do menino Renato. Isso porque, quis o destino que somente ele estivesse ao lado dela em todos os momentos.

            A bicicleta de Renato, em verdade, apontou bem mais do que os novos caminhos que a vida expectava. Montado nela, o garoto acompanhou e viveu o drama de Malena. Extraindo da inocente alma os confusos sentimentos que brotavam. Pior ainda: tendo que dar conta deles em tempo real, pois nada podia ser adiado. E assim, sentado no banco da bicicleta, Renato começou a compreender a vida e a travar com os sentimentos uma peleja que nunca mais findará!

            Ao reencontrar Malena, quem sabe despedindo-se da paixão, ele nos deixou um belíssimo legado, narrado agora pelas lembranças de um “envelhecido” Renato: “Eu pedalava como se fugisse. E, na verdade, fugia: dela, daquelas emoções, dos sonhos, das recordações, de tudo enfim... E pensava que precisava esquecer. Eu tinha certeza de que conseguiria esquecer. Mas, agora que estou velho, que consumi banalmente minha vida, que conheci tantas mulheres que me disseram: lembre-se de mim, percebo que esqueci todas. Porém, até hoje, ela é a única mulher que jamais esqueci: Malena”.