|
Carlos Holbein |
|
Quando comecei a escrever para revistas, em abril de
2000, fiz-me duas perguntas: o que pretendo com essas crônicas? E a quem
eu quero me dirigir?
Na verdade, eu demorei um bom tempo para descobrir as
respostas, porquanto eram muitas! Precisei, por exemplo, atingir 59 anos
de idade e estar feliz com isso. Alcançar 35 anos numa vitoriosa
carreira no magistério, onde aprendi bem mais do que ensinei. Precisei
também consumar dois casamentos maravilhosos, muito embora sentisse
falta dos filhos que não vieram... Além disso, foram necessários sete
anos de terapia psicanalítica, em busca de ajustes finos. No entanto, a
maior razão para eu escrever é, por certo, acreditar que tenha algo a
dizer para alguém. Sem o quê, convenhamos, nada disso teria sentido!
Somente agora, meus amigos, descobri o porquê. No fundo,
acredito que o que me move na direção da literatura é a grande
oportunidade de fazer as minhas "expiações". Tão somente. Ou seja, enfiar a
mão na "caixa-preta" da memória-afetiva e retirar de lá o que puder... E
desse modo, ao revisitar antigos episódios, quem sabe eu possa renovar
os laços que estão no presente?! Enfim, o importante é convidar o leitor
a fazer uma longa "viagem" comigo... Quando me disponho a escrever - um movimento quase mágico -, fico imaginando que há nesse mundo mundo vasto mundo* alguém que deseja se identificar nas minhas "histórias". E dizer: eu também sinto isso! Ou, então, quem sabe, eu apenas queira ouvir de alguém: você me tocou! Seria sinal de que valera a pena!
Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto
sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e
convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a
tácita cumplicidade e o "rapto" é concedido afinal.
As crônicas sobre os filmes pretendem desencadear no
leitor alguns desejos. De modo óbvio, o de assistir ao filme. E logo a
seguir, o de refletir sobre o "em volta" dele. Isso porque, meus amigos,
raramente as crônicas falam sobre o filme de forma direta. Muito ao
contrário, são os filmes que pegam carona no texto, como pano de fundo.
Os artigos sobre jazz trazem a mesma intenção. Muito
embora o foco seja outro, a linguagem permanece semelhante: convidar o
leitor a continuar a "viagem". Sempre.
Os artigos são destinados a um público ávido por
informações: às criaturas que ao fazerem uso de uma leitura rápida e
instigante possam ter um entretenimento agradável. Como professor, sei
bem que a pior coisa que uma pessoa gosta de ouvir é: "você não
entende". Por isso, sempre tive o cuidado de não ferir ninguém ou me
mostrar arrogante. Convenhamos: o conhecimento é algo para ser
repartido, socializado. E, sempre que possível, sem cerimônias! O escritor tem a obrigação de seduzir o leitor. Primeiro para que o leia. Depois, para que tome gosto pela leitura. Mas, acima de tudo, para que se sinta tentado a prosseguir nesse maravilhoso caminho. Um grande abraço a todos e boa diversão. PS. Ah, sim, ia esquecendo o mais importante: foi com o terceiro casamento que encontrei a felicidade que tanto procurara. E ela veio com o meu querido filho Gabriel, a amada esposa Zelândia e seu lindo filho, Mateus. Abençoados sejam! (*Carlos Drummond de Andrade: "Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração.") PS. 2 - Se me permitem, eu gostaria de homenagear àquela que foi a mais generosa criatura que conheci na vida: Jarina Menezes, minha mãe (que resolveu conhecer outras paragens e partiu deixando uma baita saudade em todos nós!). |
