A  dor  de
cada  um

 

 

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois."   (Albert Camus, em O mito de Sísifo)

 

       Ninguém poderia afirmar se Ben (personagem de Nicolas Cage) leu ou não a magistral obra de Camus. No fundo, isso não tem muita importância. O certo é que ele se sentiu tão oprimido como escritor argelino. Oprimido pelas angústias e as incertezas que cercam toda alma conflitada. Invariavelmente. Talvez por isso, ele guardasse tantas “dores” quanto as que Camus sentiu e narrou. Dores extraídas das contradições humanas que, para lamento nosso, são muitas... Fazer o quê?!

Pode-se dizer que Despedida em Las Vegas é um desses impiedosos filmes que revela, sem cerimônia, as nossas “doenças”, à medida que nos identificamos com cada um dos personagens, todos eles. Ainda assim (ou quem sabe por isso mesmo), nós preferimos “varrê-las para debaixo do tapete”. Cinicamente. Como se tal comportamento resolvesse alguma coisa...

Então, para impedir tal escapismo, entra a mão algoz de Mike Figgis, diretor do filme, que assume o papel do alter ego coletivo. Lentamente, ele vai soltando os “demônios interiores” escondidos em nossas almas atônitas que, a partir daí, ficam acuadas pelo foco. Sendo assim, as plateias não têm para onde fugir. Como consequência, elas são obrigadas a render-se ao inevitável “confronto”. O que decorre daí, meus amigos... só Deus sabe!

A narrativa do filme procurou explorar a depressão desencadeada em Ben, ainda que mal justificada na figura de um “escritor fracassado”. Devo confessar a vocês: achei lastimável a forma como foi apresentado o “motivo” da depressão do protagonista, muito embora o roteiro do filme seja excelente. Como num invertido jogo de esconde-esconde, em que a “morte” é o alvo preferido, o que se percebe, na verdade, é um forte ressentimento ao alcoolismo, isso sim. Explicitamente, ele aparece como primeiro plano na temática do filme, quem sabe para “aplacar” as recônditas culpas que insidiosamente estão presentes na sociedade norte-americana?!

Por outro lado, eu reconheço que fiquei satisfeito com a crítica “subliminar” que o filme estabelece junto à família, tradição e propriedade. Não que eu seja um anarquista de valores morais. Digo isso, creiam-me, apenas por não suportar mais essa contada e recontada mentira social. Convenhamos: já não bastaram as lavagens cerebrais de que fomos vítimas por décadas a fio nos filmes de mocinho matando índio? Ou ainda: soldado americano vencendo, com poucos tiros, o poderoso exército alemão; Eliot Ness prendendo todos os gângsteres de Chicago e o indefectível Fred Astaire nos fazendo crer que a vida é só bela e dançante?! Céus! Como diria o meu pequeno Gabriel: tô fora, pai! Pois é. Tem ele razão. Logo, só me resta dizer: “ah, se eu fosse Fernando Pessoa!” Decerto, soltaria um desabafo: Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?!

Não resta dúvida que o tema do filme é delicado e polêmico. Por isso, se justifica a referência citada na epígrafe desse texto, quando Camus nos coloca uma questão fundamental: é possível se optar pela morte? Muitos dirão que não. Enfaticamente. Dirão que foi covardia de Ben e que a bebida não “resolve” problema algum. Outros, um pouco mais generosos, afirmarão que nem mesmo o amor dele por Sera (personagem de Elizabeth Shue) – uma prostituta solitária, em busca do verdadeiro amor – o salvará do juízo final. De uma forma ou de outra, sempre haverá uma dura sentença!

No entanto, cabem aqui algumas perguntas: será que a vida é tão simples assim? Será que temos respostas para todas as aflições? Mais ainda: podemos fazer julgamentos sobre a dor alheia? Pois é, meus amigos. São questões complicadas, sei bem, porquanto são conflitos pessoais. Muitas vezes, eles permanecem intangíveis às nossas compreensões. Tal qual o “abandono”, que é um elemento implacável e não alivia o coração de quem quer que seja. Ou, por acaso, a “agonia” é uma emoção que somente “os outros” costumam ter?!

Nessas horas mais difíceis, eu lembro que os dramas são sempre individuais e que a dor - impiedosa parceira - é solitária e particular. Somente a criatura envolvida no processo pode sentir o “real” espectro da angústia. Ah! Disso, eu estou convencido!

Quando eu leio Cecília Meireles, por exemplo, vejo alguém derramar em poesia a imensa dor de se ver envelhecendo: Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro / nem estes olhos vazios / nem o lábio amargo. / Eu não tinha este coração que nem se mostra... / Eu não dei por esta mudança / tão simples, tão certa, tão fácil / Em que espelho ficou perdida a minha face?

Não é preciso muita acuidade para perceber que somos pessoas diferentes. Se pensarmos bem, é essa pluralidade que nos torna tão interessantes. Mais do que diferentes, somos contraditórios, assim como contraditória é a vida. E a vida de Ben, com certeza, não foi bem tratada por ele ou pelo “destino”. Uma pena! Contudo, isso não faz dele um perdedor. Quando muito, uma vítima. Sim, muitas vezes nós somos vítimas de processos que acontecem à nossa revelia: seja por circunstância, seja por inocência ou até mesmo ignorância. Também é verdade que, de uma forma ou de outra, nós “ajudamos” esses boicotes. Aliás, já se disse por aí que nessa vida ninguém é absolutamente santo ou carrasco. No fim das contas, somos todos portadores de impulsos generosos e destrutivos. E, cá entre nós, essa é mais uma contradição humana. Tão somente.

Na longa história do homem, muitas injustiças já aconteceram. Ainda que elas sejam encaradas com “repúdio”, não cessarão aí. Seguramente, muitas outras virão. Paciência! O que é preciso, então, é aprender como drená-las. E assim, ao conquistar tal sabedoria, poderemos dar prosseguimento às belezas da vida. Quem sabe se não é essa a nossa seleção natural? Isto porque, sejamos justos, somente alguns de nós terão êxito e saberão colher o “néctar” que há na vida. Os outros, ah!, os outros irão “escorregar” e pagarão um alto preço, onde a moeda contábil raramente é o dinheiro!

O nosso querido Manuel Bandeira pode lá ter sofrido muitas dores, que alimentam os poetas, mas, apesar disso, ele exclamava com orgulho: Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. / Tenho todos os motivos menos um de ser triste.

O filme Despedida em Las Vegas não pode ser visto apenas como a “crônica de uma morte anunciada”. De um modo irônico e cruel, ele acaba revelando uma das maiores contradições humanas. É que ao se relacionar com a “morte” de Ben, somente assim Sera consegue retomar a “vida”. E dessa forma, ela recupera a autoestima que fora extraviada nos caminhos do mundo.

Há que se registrar a extraordinária trilha sonora do filme. Meu Deus, são belíssimas canções interpretadas por Sting. Sua voz se presta como uma luva para os lamentosos “blues” que costuram o clima down em que transcorre a história. Confesso a vocês: fiquei especialmente comovido com duas músicas: It’s a lonesome old town e My one and only love. Deslumbrantes!

O que importa é que se por um lado o filme nos deprime com um enredo massacrante, por outro, ele nos oferta profundas reflexões, trazidas à baila por conta dessa linda história de amor. Com isso, quem sabe possamos nos aproximar de algumas questões que há tempo nos afligem? São perguntas que aguardam respostas e que, de alguma maneira, um dia precisaremos atender.

Foi Nietzsche que, diante do absurdo da vida e do mundo, escreveu: o absurdo de uma coisa não é uma razão contra a sua existência. É mais uma condição!

Sim, minha gente, é bem possível que a resposta de tudo isso esteja, simplesmente, no verso cantado por Caetano Veloso: “...cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!”

         Uma coisa, ao menos, eu tenho certeza: se navegar é preciso... Viver, também o é!