CINEMA  PARADISO,

PSICANÁLISE

&

FERNANDO PESSOA

 


 

Tudo bem, eu sei que não faltará gente a afirmar que o título desse artigo é muito “estranho”. Algo inusitado ou até mesmo sem sentido. Isto porque, de fato, ele soa diferente. Aliás, devo confessar: eu disse isso a mim mesmo quando o tema surgiu!

Acontece que eu tenho acompanhado com interesse e participação a nova fase da Revista Áudio & Vídeo, agora em bancas. Uma coisa eu posso assegurar: o movimento da equipe está impregnado de profissionalismo. E também de “paixão”. Sim! Até porque, convenhamos, o que seria do homem sem a paixão? Uma manifestação que alguns chamam de desvio, outros de obsessão e, por vezes, até de teimosia. O que sei é que esse “comportamento” tem produzido profundas teses e estudos da psicanálise. Reconheçamos uma coisa: sem paixão, teríamos inventado a roda ou a calça jeans?! Mergulharíamos tão fundo nas relações interpessoais? Seríamos seguidores de movimentos e ideologias, inda que utópicas? Sei não, minha gente... Quem pode garantir?!

Os céticos, provavelmente, dirão: é... mas pagamos um preço alto demais por tudo isso. Segundo esses, o mundo prescindiria de muitos desses movimentos. Movimentos que têm determinado o desenvolvimento da sociedade, sem dúvida alguma, ainda que de forma turbulenta. Os pessimistas proclamam que nós arrastamos, no bojo de tais criações, um sem número de idiossincrasias. Doenças essas que se incorporam às nossas personalidades hodiernas. É... pode ser.

Mas, o que isso tudo tem a ver com a revista, Carlos? O que tem a ver com o filme Cinema Paradiso? - indagarão os desconfiados leitores. Tudo bem... mas, calma aí, companheiros! É que eu demoro a encontrar a minha linha de raciocínio, uma vez que ela também está impregnada de paixão.

Mas o que eu gostaria de dizer, efetivamente, é que por trás da criação nada mais há do que paixão. Sim, meus amigos, paixão! Esse doce e lindo sentimento que impulsiona a história, que arrebata espíritos empreendedores e que nos faz acreditar em... em tudo. O certo é que ali se encontra o talento da arte, dos místicos e dos inquietos. E com sorte, poderemos descobrir um pouquinho desse talento (paixão) em nossas vidas. Ah, como isso é bom!

Vejamos. O ser humano é capaz de se sensibilizar diante da arte. Mas, arte, convenhamos, é algo subjetivo. Algo que suscita diferentes reações para cada criatura e em cada momento da vida. É possível que, frente à arte, tenhamos diferentes comportamentos: o que para uns se traduz em desafio, para outros é motivo de certa resistência...

Quando eu assisti, pela primeira vez, ao filme Cinema Paradiso, confesso a vocês: fiquei profundamente comovido. Tão emocionado que me senti “paralisado” diante de tamanha beleza. Meu Deus do Céu, como pode um simples mortal produzir tanta poesia em apenas 123 minutos de filme? Como pode alguém ser capaz de fazer o espectador “viajar” na linguagem mais sensível da raça humana: o olhar para dentro? Talvez alguns respondam: técnica e conhecimento! E eu refuto: não bastam! Com toda certeza, meus amigos, é preciso bem mais do que um bom enquadramento, diálogos bem produzidos, interpretações corretas e uma trilha sonora comovente para se fazer um extraordinário filme. Pela singular razão de que é preciso tudo isso “junto”! E em dose perfeita!

De uma coisa eu tenho certeza: no Cinema Paradiso, ocorre exatamente assim. É que a nostálgica atmosfera, criada desde os primeiros minutos, sugere sempre um contato íntimo com o espectador. E pelas mãos de Giuseppe Tornatore, diretor do filme, os personagens vão ganhando vida. Vão assumindo o espectro da dor, mas com profunda poesia. Revelando as frustrações presentes em cada um de nós, sim, mas com suavidade e encantamento. O sentimento desencadeado pelo toque de Alfredo na vida de Totó, por exemplo, só pode ser comparado à linguagem materna, que é divina e universal.

Sabemos que o “conhecimento” é o bem mais almejado na vida. Pelo menos, deveria ser, uma vez que representa a busca mais incessante empreendida pelo homem! É algo extraordinário e, muitas vezes, constitui o seu verdadeiro objeto de desejo. A verdade é que, por ele, temos sido capazes de buscar soluções, de criar um sem número de técnicas e, até mesmo, de pagar um bom preço para lográ-lo. Tudo isso para que tenhamos atendido a nossa ânsia de desenvolvimento. No entanto, amigos, eu falo de paixão. Sim! Aquilo que nos dá a capacidade de sonhar, sonhar e sonhar. E, quem sabe, sonhando, possamos aplacar nossos recalcados desejos de imitar a vida por intermédio da arte?!

No filme, foram muitos os “beijos proibidos” a que Totó não pode assistir na tela do Cinema Paradiso. Como consequência, quando ele se tornou um homem maduro e bem sucedido, passou a ser algo extremamente importante “recuperar” esses beijos. Não restando a Totó outra escolha senão retornar à sua cidade natal e enterrar os seus mortos. Tudo isso para poder, enfim, ressuscitar “outras vidas” dentro dele. Afinal, como representante de uma raça dotada de emoção, Totó seguidamente viu-se enredado por doídas lembranças. E ao se ver paralisado por essas insidiosas memórias, ele percebeu que era preciso desatar os tantos “nós” que a vida foi aprontando. Ao que tudo indica, ele conseguiu!

Quanto a nós, “desavisados náufragos”, quem sabe se um dia poderemos conquistar o conhecimento, sem perder de vista a paixão que nos domina? Sem que viremos às costas ao humanismo em nome do desenvolvimento! Com sorte, talvez possamos dar ao conhecimento novas formas e novos ambientes que atendam as individualidades de cada um. Com isso, devolveríamos a quem de direito o extraviado “selo de autoria”. Essa mesma autoria que fez Giuseppe Tornatore buscar em Ennio Morricone a trilha sonora perfeita para soltar suavemente o enredo dessa belíssima história. Ah! Tomara que isso aconteça, minha gente. Tomara!

O desempenho do menino Totó (Salvatore Cascio) é algo comovente e muito bem sucedido por Totó adolescente (Marco Leonardi) e melhor ainda na dramática expressão facial de Totó adulto (Jacques Perrin). A cena da demolição do Cinema Paradiso é, seguramente, digna de observação psicanalítica. Pode-se perceber que os alicerces damemória afetiva” de Totó vão caindo lentamente, um a um. Trágica e impiedosamente. Por outro lado, com muita sensibilidade eles passam a ser reconstruídos na simbólica montagem dos trechos de filmes proibidos de sua infância distante. Com isso, Totó consegue finalmente “realizar” a sua expiação e exorcizar para sempre os fantasmas que tanto incomodavam...

Segundo os irmãos Taviani (Paolo e Vittorio): “Este é o filme de um homem dedicado ao cinema para aqueles que amam o cinema”. Romântico (mas não piegas), sentimental (mas não menos vigoroso), Cinema Paradiso traz de volta o sorriso nos lábios. Até mesmo nos homens taciturnos. Ufa! Ainda bem.

Nessas horas, então, é que percebo: preciso reler Fernando Pessoa. Urgentemente.

“O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa”.