Outros caminhos
mais  doces

 

 

 

               Não existe nada mais complicado nesta vida do que aprender a lidar com as “perdas”. Ah, eis aí uma verdade! Em geral, cada indivíduo “trabalha” a questão da perda de modo particular. No fundo, as nossas reações são sempre diferentes e, algumas vezes, estão sujeitas às idiossincrasias que herdamos ou desenvolvemos. Há criaturas, por exemplo, que “escamoteiam” as emoções, procurando mascarar a dor. Como se isso fosse possível... Mas há, também, o contrário disso: os que se “apegam” à dor e cultivam um perigoso processo de autoflagelação. É... Temos de tudo nesta vida, meus amigos!

            De uma coisa tenho certeza: seria muito bom se soubéssemos assimilar os fortes impactos que a vida nos proporciona, uma vez que nada neste mundo justifica a dor. Seja ela qual for. E digo mais: como eu nunca fui um bom cristão, em decorrência, também não acredito nessa história de que é preciso sofrer para “purgar” os pecados. Sem essa, minha gente!

            Quando uma criança chega ao mundo, certamente, vem impregnada de pureza angelical. Logo a seguir, ela começa a receber a forte carga emocional dos pais, por vezes instáveis e complicadas. Começa, então, a “via-crúcis” do indivíduo, que pode enveredar por caminhos imprevisíveis. Se olharmos bem, veremos que tudo isso é injusto. Afinal, o inocente “rebento” nem bem adquiriu imunidades e já é bombardeado por um monte de insanidades... Paciência, fazer o quê?

            O problema é que daí pra frente a “batalha” não mais cessará. Porquanto estaremos sujeitos a toda sorte de frustrações e violências. De tal monta que se não criarmos rapidamente “sadios” mecanismos de autodefesa, a coisa irá longe. E como!

              Por ironia, é nesse exato momento que se dá início a formação do caráter de uma pessoa. Digo isso de forma consternada, pois acredito que seria melhor se tivéssemos mais tempo para depurar a “herança” recebida. Talvez, por conta disso, muito precocemente somos obrigados a fazer uma infinidade de escolhas. Escolhas do tipo: quero isso e não aquilo ou gosto disso, mas não daquilo...

            De qualquer forma, indiferente aos nossos problemas, o mundo segue o caminho dele. E, lentamente, ele vai nos apresentando às “encruzilhadas”, oferecendo “tentações” e nos empurrando aos becos sem saída. Céus, que vida complicada, não?! O que fazer, então?!

            Sinceramente, não sei. Eu juro a vocês. Sei apenas que o destino de cada criatura a ela pertence. Lá, isso sim! E ao que tudo indica, não há “receita de bolo”. Tampouco o “dever de casa” pode ser antecipado. É, meus amigos... pelo visto, o jeito é arregaçar as mangas e ir à luta. Da melhor maneira que se puder. Ou souber. Quanto ao restante, bem, aí ficará por conta de outros fatores: talento, sensibilidade, determinação... e, até mesmo, sorte.

            O que posso dizer é que comigo não foi diferente. Ainda que a tarefa seja interminável, eu também tive que desbravar os meus “caminhos” e muitas “voltas” fui obrigado a dar. Não posso garantir que eu tenha alcançado profundo êxito, mas que estou feliz, lá, isso é verdade.

            Curiosamente, uma dessas “voltas” que o destino me proporcionou foi-me ofertada por uma antiga namorada, Bárbara. Sem dúvida, uma criatura especial. Permitam-me narrar certo episódio:

            Eu era ainda estudante universitário e Bárbara era colega de faculdade. Não demorou muito e os nossos olhares começaram a conspirar. Aí, sabe como é? Dois “aventureiros” perambulando pelo mundo e dispostos a desvendar os “segredos” da vida... Pimba! Rapidinho e estávamos namorando. Surgindo daí uma paixão avassaladora. Coisa linda!

            O tempo ia passando, a paixão sempre presente e, assim, os sonhos eram renovados. Até que veio a formatura. Patrocinada pela mãe, Bárbara recebeu uma irrecusável oferta de estágio na Basiléia, Suíça. Céus, a euforia do convite logo deu lugar ao “frio” na barriga. É que sabíamos o que representava um ano de separação... Timidamente, apoiei o projeto, mesmo intuindo os riscos.

            O coração de Bárbara, tanto quanto o meu, estava superdividido no dia da partida. No entanto, não se pode abrir mão dos “sonhos” e nós sabíamos disso. No caminho até o aeroporto, uma melodia “martelou” a minha cabeça, impiedosamente: Ne me quitte pas. Talvez eu devesse cantar... Mas, apenas um longo abraço, envolto em silêncio, selou aquele momento de despedida.

            Após seis meses, veio a trágica notícia: o estágio seria prorrogado por mais um ano. Imediatamente, entramos em pânico. “Por que você não vem para cá, meu amor” – Bárbara indagou-me com sofreguidão. Como, paixão, se eu já estou dando um monte de aulas no cursinho? - respondi, atônito e indignado.

            Dizem por aí que o “diabo” é mais ligeiro que os “anjos”, porquanto é determinado. Olha, pode bem ser verdade. O certo é que em menos de um mês eu vendi o carro, a linha telefônica e raspei a poupança que possuía. Com a passagem na mão, embarquei para a Suíça. Extasiado!

            A chegada ao aeroporto foi um verdadeiro sufoco. E se ela não estivesse lá?! Sem saber uma só palavra em alemão, como eu me safaria?

            Contudo, lá estava Bárbara: linda e sorridente! Tão ou mais nervosa do que eu, cujo coração mal cabia no peito. Verdade é que o ardente beijo no saguão do aeroporto constrangeu algumas pessoas, mas nunca fora tão sentido e desejado quanto aquele.

            Para custear a minha estada, trabalhei como garçom, cuidei de crianças e até uva, meus amigos, eu colhi nos campos da França. Ah, foram ricas e preciosas experiências, isso sim. E até hoje, decorridos vinte e poucos anos, até hoje, eu tiro proveito daquela incrível viagem.

            Quando voltamos ao Brasil, nós fomos morar juntos e somente aí é que eu comecei a conhecer a personalidade de Bárbara. Muito embora ela não se queixasse de nada e demonstrasse estar feliz comigo, no fundo eu percebia que a sua “natureza” estava sendo violentada. Bárbara possuía uma dessas almas irremediavelmente cigana. Sendo assim, eu não achava justo sufocá-la com um bem-comportado casamento, por maior que fosse o nosso amor.

            Conversávamos bastante sobre esse tema, mas sempre acabávamos postergando a decisão. Até que um dia, sem que fosse preciso dizer uma só palavra, pressentimos o fim. E como toda e qualquer separação, a nossa foi doída, triste e inconformada...

            Passados tantos anos, o mais surpreendente é que se eu perguntar aos amigos comuns sobre o paradeiro de Bárbara, as informações serão contraditórias. Seguramente! Uns afirmarão que ela confecciona batik em Jacarta, na Indonésia. Outros, dirão que ela mora na cidade do México, tem dois filhos e trabalha numa multinacional farmacêutica. Mas há quem garanta que ela, voluntariamente, cuida das tartarugas-gigantes em Abrolhos. E aí? Quem sabe onde está a verdade? E será que isso importa? Bem, seja qual for o destino que Bárbara tenha escolhido, torço para que esteja feliz. Com sorte, terá mantido aquele maravilhoso sorriso nos lábios que tanto me cativou. Ah, tomara! É só o que posso dizer...

            Mas, Carlos, por que toda essa história veio à baila - indagarão os leitores. Bem, no momento em que se está sereno e relaxado e põe-se a ver um belo filme como este - Chocolate, de Lasse Hallström - tudo é possível, não acham? E asseguro a vocês: por conta desse encantado enredo, acabei resgatando antigas lembranças de Bárbara. Pudera! Quando a talentosa Vianne (personagem de Juliette Binoche) apareceu na telinha da tevê, confesso que tomei um baita susto. Primeiro, por causa da semelhança física com Bárbara. Depois, pela história surpreendente apresentada ao longo do filme. Céus, tudo me pareceu tão real, minha gente, que acabei “embarcando” na fantasia do filme e, de quebra, em reminiscências!

            Aliás, o filme aparenta ser tipicamente francês. Ainda assim, percebemos o “toque” americano na coprodução. Lamentavelmente, pois a famigerada “pressa” dos americanos se faz presente em determinadas cenas. Como quase sempre acontece... Uma pena, isso sim, já que os “deslizes” fizeram alguns estragos e, em parte, empanaram o brilho da história. Contudo, vale a pena assistir ao filme!

            Em algumas passagens, o filme possibilita oportunas reflexões. Como no desabafo de Josephine (personagem de Lena Olin) a Vianne, quando diz: “Aqui, ninguém se comporta mal. Se você não se confessa, se não finge que tudo que quer na vida é servir ao marido, dar-lhe filhos e limpar a casa, então, você é louca...” Só bem mais tarde é que Vianne parece responder ao dramático depoimento de Josephine, quando afirma: “Não é fácil ser diferente!”. Nossa!, que verdade! É que para ela e a filha, acostumadas às sucessivas e obrigatórias peregrinações pelas cidades que nunca as acolheram, a vida teve que recomeçar diversas vezes. A tal ponto que um dia a filha questionou: “Isto vai continuar para sempre, mãe?”

            Por fim, ao relembrar a questão da “perda”, devo declarar a vocês: eu lamentei bastante a ausência de uma narrativa mais forte. Talvez fosse o caso de pedir “socorro”. Ou, pelo menos, tomar “emprestado” um pouco da pujança alcançada em outras histórias, inclusive americanas. Como ocorreu, por exemplo, em D. Juan de Marco. Lembram? Na voz do “irresistível-impostor”, ouvimos a comovente proclamação do paciente ao psiquiatra: “São quatro as questões de valor na vida: o que é sagrado? Do que é feito o espírito? Por que vale a pena viver? Por que vale a pena morrer? A resposta para essas questões é sempre a mesma: amor... só por amor!”