O  dia  do

Otaviano

 

 

(Este artigo é inspirado em uma crônica do meu querido tio, Holdemar Menezes. Tenho certeza de que ele, lá do andar de cima, ficará feliz com a homenagem e dará boas gargalhadas...)

 

               Confesso que entrei na garagem já bastante afobado. É que não suporto chegar atrasado aos meus compromissos. Afinal, tenho um bom nome a zelar, ainda mais sendo o Coordenador Pedagógico. Mas, paciência, fazer o quê? Quem pode adivinhar quando a pilha do despertador vai acabar? Aí, nem Jesus Cristo!

            Para piorar a situação, pela primeira vez eu estava indo trabalhar sem o carro. É que havia deixado o maldito Chevette na oficina para fazer mais uma “revisão completa”. Sendo assim, o jeito era encarar o ônibus que sai bem cedo do centrinho da Lagoa. Isso, quando não chove, segundo dizem!

            Antes, porém, eu entrei no botequim para comprar cigarro e tomar o “cafezinho da fome”. Foi quando o alemão cometeu o primeiro engano do dia.

            - Não tenho troco, Seu Otaviano. Mas, o senhor pode pagar amanhã. Ora bolas, enquanto eu for o dono aqui da casa, o senhor há de ter crédito!

            Mesmo não sendo o tal “Otaviano”, não achei inconveniência alguma no engano. Claro que, no dia seguinte, quando fosse apanhar a condução para o centro, pagaria o maço de cigarros.

            Como o ônibus não havia chegado ainda, o calor já era intenso e a fila estava grande, aproveitei para comprar o jornal na banca da esquina.

            - Não tem trocado, Seu Tavinho?

            - ... ?!

            Então, resolvi trocar o dinheiro na padaria, do outro lado da rua, senão o trocador do ônibus poderia, também, confundir-me com o tal “Otaviano”. Mas, não adiantou nada, pois o moleque, irreverentemente, saiu-se com intimidade.

            - Que que é isso, Seu Ota? E o carrão? De fato, é verdade, aquilo tá caindo aos pedaços! Eu outro dia até pensei: se eu fosse o Seu Ota, vendia aquela carroça e comprava um “zerinho”. Tá escondendo o dinheiro debaixo do colchão, Seu Ota?!

            Fiquei com a mão estendida, aguardando o troco. O moleque, todavia, voltou a me provocar.

            - Quer troco, Seu Ota? O que foi que aconteceu com o senhor? Não vá me dizer que brigou novamente com a loura?! Olha, Seu Ota, não me leve a mal: aquilo é “pilantra”, mulher sanguessuga. Não serve pro senhor não!

            Irritado e perplexo com toda essa confusão, preferi mergulhar a cabeça no jornal e ler as manchetes. Banco assaltado, à luz do dia, em frente ao Batalhão da Polícia Militar. Os bandidos fogem a pé. Delegado da Polícia Federal é preso com contrabando. Perdeu a dentadura na gafieira e disse que vai apelar ao Governador “populista”. Deputado diz que é honesto: enriqueceu com o jogo-do-bicho e corridas de cavalo.

            Ainda mais irado com as notícias, joguei o jornal pela janela do ônibus e acabei descendo no ponto errado, pois havia me distraído. Tive, então, que voltar um bom pedaço. O engraxate da Praça XV, quando me viu, abriu um enorme sorriso de apenas dois dentes.

            - E aí, Seu Tavinho, o senhor por aqui? Tá perdido ou tá fugindo de casa? Não quer aproveitar a ocasião e dar um brilho no “pisante”? E, já que a loura botou o senhor pra fora de casa, por que não dá um trato no “visual” e arruma outra que valha a pena?

            Aí, minha gente, eu não aguentei mais. Suando de calor e de raiva, gritei que não era “Otaviano” coisa nenhuma, nem sequer o conhecia. Inclusive, eu acho que ele nem ouviu quando eu disse que não tinha loura alguma na minha vida e que não comprava fiado com ninguém! Mas, o ruivo não perdeu o rebolado.

            - Não disfarça não, Seu Tavinho. Embora analfabeto, saiba que eu sou um cara bastante vivido. E de mais a mais, se eu fosse o senhor caía fora daquela loura, que aquilo desgraça a vida de qualquer sujeito. Ela é muito manjada aqui na Praça. Abra o olho, Seu Ota...

            Deixei o ruivo falando sozinho, com os dois dentes à mostra e desci, em disparada, pela avenida principal. Só comigo acontece isso!

            Verdade, meus amigos, é que na altura do campeonato eu já estava até curioso, querendo conhecer o tal “Otaviano”. Como faltavam ainda vinte minutos para a minha primeira aula, procurei recuperar o fôlego, sentando à sombra de uma árvore, no jardim da Prefeitura. Eu estava, também, com vontade de faltar ao colégio e dar o dia por encerrado. Na esquina, porém, dois indivíduos discutiam violentamente. O de chapéu marrom, sem perceber, deixou aparecer o cano do revólver, por trás do paletó.

            - Quem foi que disse isso, Miranda? Foi o Otaviano? Ele disse isso de mim, aquele safado? Tem certeza, Miranda? Olha, eu te juro: hoje pego aquele patife do Otaviano e deixo a barriga dele mais furada do que peneira! Vou atrás dele até no inferno! Ah, aquele sem-vergonha vai se arrepender... Vai “conversar” com São Pedro!

            Aí, amigos, o meu coração disparou e eu entrei em pânico. Lamentei não ter um chapéu para cobrir parte do rosto. Mas, e se o “Otaviano” usasse chapéu, não seria pior?! Então, apelei para os óculos escuros e,  somente assim, senti-me mais protegido. Naquele momento de angústia, devo confessar, o que eu mais desejava era comprar uma peruca ou uma barba postiça...

            Levantei desesperadamente o braço e acenei para o primeiro táxi que, por sorte, parou instantaneamente. Entrei apressado e dei o endereço de minha casa, já me sentindo aliviado e planejando uma urgente mudança de cidade.

            - Logo vi que era o senhor, Seu Ota, apesar dos óculos. Tá indo pra casa da loura dar “aquele flagrante” ou já tem outra na parada?

            Bem... Agora já estou refeito do susto e adaptado à nova cidade. Reconheço que foi um período muito complicado. Imaginem vocês: até plástica tive que fazer. Nunca se sabe, não é?!

            Como hoje é sábado, eu planejei ver um bom filme. Na locadora, havia uma fita muito badalada, ganhadora de cinco Oscar: Beleza Americana. É bem verdade que sou bastante cético quanto a filme premiado com Oscar. Por via de regra, existe a armadilha americana: muito efeito especial, pressa para contar a história e elenco com exagerado desempenho. Sinceramente, foram poucos os filmes americanos que me marcaram. Acho que não conseguiria me lembrar de dez. Já os franceses, os italianos, tchecos, suecos, ah, é outra história. Isto sem falar dos russos e poloneses...

            Mas, no fim das contas, o que eu havia escolhido era americano. Oxalá seja bom!

            Comecei a assistir ao filme meio desconfiado. O roteiro parecia manjado: um bem-comportado publicitário quarentão e a sua ambiciosa esposa mergulhados em um casamento fracassado. Detestado pela mulher, desprezado pela filha e vendo a carreira ir por água abaixo ao ser demitido, Lester Burnham (personagem de Kevin Spacey) se vê em total colapso. Assim sendo, Lester decide fazer mudanças em sua vida e a cada nova experiência, vai adquirindo confiança e a certeza de que o casamento acabara.

            Como consequência, é tomado por um “surto” ao conhecer a adolescente amiga da filha, uma menina fútil que gosta de “brincar de seduzir” todos os homens que conhece.

            Dizem por aí que o “diabo” se veste de jovem. Pode ser. O certo é que o nosso simpático Lester foi mordido pela mosca azul. Pudera! Com um diabinho daqueles tentando os últimos estertores do quarentão, quem há de resistir?

            Então, vem o final do filme. Meu Deus do Céu, estava indo tão bem e, de repente, pimba: bateu a paranoia americana e “aveludou” a história... Ah, que pena! Foi por pouco. Quem sabe na próxima tentativa eles sejam mais felizes?!

            O que posso dizer, com convicção, é que depois disso tudo tive vontade de retornar à minha terra, mesmo correndo riscos. Afinal, após aquela história do “Otaviano”, passei a achar a vida muito monótona nesta pacata cidade. No fundo, eu até sinto saudades do Seu Ota. Mais ainda: estou convencido de que preciso “viver perigosamente”. Caso contrário, acabarei me tornando tema de filme americano, com direito a final feliz e o escambau... Aí, convenhamos, seria a derrocada total. Acudam-me Monicelli, Bertolucci, Lelouch, Buñel, Tavernier, Kieslowski e todos os outros...