Os "feiticeiros"
do mundo !

 



Eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água / com o telhado descendo logo após as fachadas / só de porta e janela... / Porém nasci em um solar de leões (com escadarias, corredores, porões) / Não pude ser um menino de rua... / Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo lá fora. / A casa era maior do que o mundo! / E até hoje / mesmo depois que destruíram a casa grande / Até hoje eu vivo explorando os meus esconderijos...”   (Mário Quintana)

 

           Este é o sétimo mês que falamos sobre filmes. Confesso a vocês que a tarefa tem sido muito prazerosa. Isto porque, falar sobre cinema é falar sobre “arte” e já faz algum tempo que o cinema é reconhecido como a sétima arte. Aliás, com muita justiça. Afinal, foram muitos os atores e diretores que emprestaram seus talentos às filmadoras. Criaturas que buscaram por intermédio da arte “imitar a vida”, conseguindo retratá-la, recriá-la ou, muitas vezes, subvertê-la. Pois assim é o cinema: aquela tela “encantada” que nos proporciona a grande catarse coletiva. Seja para nos transportar no imaginário das histórias e nos emocionar com a fantasia, seja para denunciar a nossa recorrente dificuldade de sonhar. O que sei dizer, minha gente, é que de uma forma ou de outra o cinema nos oferece a grande possibilidade de lavar a alma. Que maravilha!

Se uma pessoa é capaz de se modificar a partir de um bom filme ou livro fora do comum, é sinal de que ela possui sensibilidade necessária ao crescimento. E quando essa mesma criatura também é capaz de “crescer” a partir de um relacionamento marcante ou por conta de um acontecimento especial, então, é sinal que já foi “tocada”. Melhor ainda: deixou-se “tocar”. Ah, meus amigos, este é um momento mágico. Mais do que isso, é um momento de apurado valor espiritual, porquanto raramente deixamos acontecer, o que é uma pena. Pode-se dizer que se estabeleceu, nesse momento, o real processo da “purificação”. Sim, é verdade! É que nessas horas, por certo, nós conseguimos harmonizar a alma e, de alguma maneira, deixamos vazar o lado mais humano que há nela. Quantas pessoas conhecemos nessa vida que não permitem isso? Ou, o que é pior, quantas nem sequer “atinam” para a beleza desse movimento? Muitas, lamentavelmente. Tornam-se os verdadeiros “errantes”!

O nosso estimado poeta, Vinícius de Moraes, orgulhosamente nos dizia que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Com certeza, meu poeta,  uma vez que observamos que a grande “dificuldade” dos homens é exatamente “viver” e, com isso, se encontrar.  Desafortunadamente, poucos conseguem! A grande maioria se desencontra, contentando-se apenas em “sobreviver”...

Riobaldo, do Guimarães Rosa, dizia com extrema propriedade: Viver é muito perigoso! É, companheiro... talvez seja. No entanto, assim como ele se atreveu no proibido afeto que sentia por Diadorim, nós também precisamos “ousar”. Para tanto, devemos nos “expor” ante a vida, se desejamos nos emocionar com ela. Caso contrário, cumpriremos o percurso de forma “previsível e enfadonha”, sem jamais percebermos as belezas espalhadas nos caminhos que trilhamos.

Também é certo que a grande sabedoria humana não está registrada em nenhuma enciclopédia, visto que é algo subjetivo e requer sensibilidade. Por isso mesmo, há quem afirme que a “sabedoria” está em aprender a ler o livro, o “livro da vida”, de forma correta. Céus, que verdade cristalina! No fundo, o acesso a  esse invisível  livro é aparentemente muito fácil. Contudo, são raras as criaturas que alcançam esta capacidade e que desfrutam desse Nirvana. Somente as pessoas “iluminadas”. Apenas aqueles indivíduos “ousados” são capazes de decodificar o livro da vida. Com isso, eles não só se deliciam com a mágica leitura como também nos proporcionam “mensagens especiais”.

Por sinal, este é exatamente o tema do filme Bagdad Café: mensagem especial. Para mim, sem nenhum favor, trata-se de uma obra-prima do cinema contemporâneo. O filme foi construído em cima de uma história despretensiosa e corriqueira. Percy Adlon, o mago diretor do filme, conseguiu desenvolver um enredo comovente e humano, muito bem amparado pelos talentosos protagonistas. Meu Deus, que belas interpretações nos brindaram Marianne Sägebrecht, C.C.H. Pounder, Jack Palance e George Aquilar! Isso sem falar da belíssima trilha sonora, cuja romântica canção, Calling you, foi sucesso por muito tempo nas paradas musicais. Lindíssima!

O aparente “absurdo” da história encontra em nossas carentes almas o entendimento perfeito. Para ilustrar, transcrevo a sinopse da contracapa da fita: “Numa estrada deserta situada em algum ponto entre a Disneylândia e Los Angeles encontra-se um café estranho, chamado Bagdad Café. Por essa estrada empoeirada viaja a Sra. Jasmim Münchstettneer, empresária de Rosenheim – Alemanha. Uma gorda alemã vestida com um terno masculino e um chapéu com plumas. Está acompanhada por seu marido que começa a ter problemas com o carro. Depois de uma discussão, ele a deixa sozinha na estrada com apenas uma mala. E assim ela segue pelo meio do deserto, arrastando sua bagagem. Quis o destino que ela chegasse a Bagdad, Califórnia, onde existe apenas um motel em péssimas condições, ao lado de um posto de gasolina  e  um café igualmente  precário”.

Pois é. Tudo muito simples, tudo muito comum. Então, baseado nesse singelo cenário, com o talento do diretor e a magia dos artistas, desenrola-se um filme “diferente”. Inusitado em todos os sentidos. O que se segue é uma extraordinária lição de vida. Para assegurar tal tarefa, surge a encantada Jasmim, a protagonista da história (Marianne Sägebrecht). É que ao retomar o sentido da vida, que fora bruscamente interrompido na estrada empoeirada, ela vai pouco a pouco se soltando, se expondo e “tocando” as pessoas ao redor. Ainda que essas pessoas tenham muitas dificuldades em se deixar tocar, o que se percebe é uma Jasmim “feiticeira”, capaz de seduzir a todos. Com seu jeitinho tímido, Jasmim começa sutilmente a alterar o rumo de sua vida e daquelas “estranhas” pessoas. Caberia aqui uma pergunta: quantos de nós tivemos a sorte grande de encontrar uma cativante “feiticeira”? Dessas que deixam marcas na gente e que selam de vez os nossos destinos?!

Olha, eu não sei quanto a vocês, meus caros leitores. Tomara que tenham tido sorte, muito embora desconfie de que não carecemos apenas dela. Bem mais do que isso, é essencial ter no coração um “olhar” aberto e disponível. É preciso, também, ter uma alma limpa. Segundo dizem, somente assim poderemos encontrar as Jasmins que passeiam pela vida e nos abraçarmos a elas. O que posso dizer é que há tempos eu venho “pelejando”. Acredito até que já as “encontrei”. E, creiam-me, foram encontros maravilhosos. Inesquecíveis. Encontros que mudaram a minha vida e, de alguma maneira, continuam transformando o meu dia a dia. Somente a partir daí eu consegui entender e “aceitar” o poema de Drummond que tanto me marcara: Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser “gauche” na vida. Ainda bem, meu poeta... Ainda bem!

Fernando Pessoa, outro extraordinário “feiticeiro”, declarou com humilde certeza: “Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda o sou.”

        Sendo assim, só nos resta a possibilidade de nos tornarmos aplicados “aprendizes”. Com sorte, quem sabe, nós poderemos “encontrar” outras Jasmins em nosso percurso. Aí, basta aceitar o abraço mágico e deixar que esses “anjos-feiticeiros” iluminem os nossos caminhos...