As aventuras
do "coronel"

 

 

                Uma coisa eu asseguro: foi pena vocês não terem conhecido o grande “coronel” Menezes. Era meu tio, lá do velho Ceará. Ah, aquele sujeito era um tremendo “cabra da peste”, como se diz por aquelas bandas. Com toda certeza, deve ter sido “motivo” de inspiração dessas fabulosas histórias que estão guardadas nos cordéis das feiras e mercados nordestinos. Sim, a fantástica literatura de cordel: uma rica e densa narrativa que o grande público, lamentavelmente, desconhece. Aliás, por conta disso, outro dia eu estava voltando de São Paulo e li na revista de bordo um pensamento de Mário Quintana: “O pior analfabeto não é o que não sabe ler. É o que sabe, mas não lê!” Tem inteira razão, meu poeta!

            Sim... eu estava falando do “coronel”. A bem da verdade, este “título” não veio de nenhuma carreira militar, já que o homem não era chegado à disciplina. A alcunha fora “imposta”, goela a baixo, pelo seu irreverente irmão, Holdemar. Pior de tudo: pegou!

            Mas, o que eu queria dizer é que somente aos meus vinte e seis anos de idade conheci o “coronel” Menezes. Foi quando pela primeira vez retornei ao Ceará, após vinte anos de afastamento. E o intrépido “coronel” já estava, desde cedo, no saguão do aeroporto me aguardando, mesmo sem me conhecer. Já eu, confesso, nem precisei piscar os olhos. Mal desci da aeronave e o identifiquei a centenas de metros: um baita chapéu panamá, charuto baiano e as calças caindo da cintura. Sem hesitar, pensei: aquele “arataca” ali, só pode ser o tio Menezes. Pimba! Não deu outra!

            Abraçou-me feito “macho”, tanto que mal disfarcei a dor do tapa nas costas. A marca dos cinco dedos permaneceu por três dias... “Ô, sobrinho pai-d’égua!”, gritou o homem. “Ô, saudação pau-de-arara”, pensei encabulado. Poxa, bem que podia ser menos efusivo...

            Saindo dali, fomos direto para Parangaba, um bairro distante, que era onde o “coronel” tinha um belo sítio. Segundo ele, “apenas uma pequena propriedade”. O fato é que me perdi algumas vezes andando pela propriedade do homem. E o que mais me fascinou, meus amigos, foi o imenso coqueiral que me abasteceu de água de coco pelos quinze dias da visita. Um verdadeiro “néctar dos Deuses”. Isso, sem falar das mangas, que chupei feito criança! Ah, que saudades eu sinto daquele gosto doce escorrendo pelos cantos da boca.

            Tão logo arrumei a mala no quarto de hóspede, após o banho restaurador, fui ao encontro do sisudo homem. Deitei-me numa legítima rede cearense que havia no alpendre e comecei a escutar as histórias do “coronel”.

            É bem verdade, devo reconhecer, que no início ele me pareceu mal-humorado. Todavia, tal comportamento não resistiu mais do que vinte minutos, pois, logo a seguir, soltou uma meia-dúzia de palavrões nordestinos que eu nem conhecia... Foi preciso apelar para a tecla SAP!

            Aí, o “homem” se empolgou e, bem à vontade, começou a falar um monte. Terminou contando o encontro dele com Lampião e o bando de cangaceiros. “Céus, será que o “coronel” endoidou ou já está “mamado de uísque”? Que diabo de encontro é esse, que nunca ouvi dizer que ocorreu?”

            - Homem, seu menino... eu nem te conto o sufoco que passei nesta fazenda!

            - Mas, tio, isto aqui não é um sítio ou conforme o senhor mesmo disse: “apenas uma pequena propriedade”?

            - Rapaz, diz besteira não! Hoje em dia, tenho apenas dez por cento das terras, pois fui cedendo pros amigos... sabe como é?!

            - Sei... sei!?

            - Diacho, não me interrompa, seu “desinfeliz”, que estou começando a contar a história! Quer levar um “bofete nas ventas”?

            “Desculpe-me, tio”, respondi sem saber o que era bofete e tão-pouco ventas. Mas... pela expressão dele, coisa boa não seria!

            - Olha, seu menino, eram mais de cem cabras no bando de Lampião. Eu estava no escritório registrando no diário a última briga do meu canário, que quase matou o do major Venâncio. Aí, escutei os primeiros tiros... Mas, como isso aqui era muito comum naquela época, nem liguei. Só sei que a Ofélia, minha mulher, veio correndo e me disse: “Dedeu, os homens de Lampião estão na fazenda!”

            - E o senhor, o que fez, tio?

            - Ora, seu baitola, o que eu poderia fazer? É claro que fui pegar minha “peixeira” e a espingarda no armário, apesar dos gritos da Ofélia. Por sorte, eu tinha bala suficiente, pois os primeiros trinta tiros foram certeiros e, ainda assim, não parava de entrar cangaceiro pelo manguezal adentro...

            - É mesmo, tio?

            - Bem, pra encurtar a prosa, que já estou ficando com uma fome danada, no dia seguinte o delegado contou 68 corpos... Só vendo!

            - 68?! O que é que é isso, meu tio?!

            - É verdade, menino. Mas, só fiquei aborrecido pelo fato de não ter encontrado o corpo do dito cujo, o Lampião. E tenho certeza que sapequei cinco tiros naquele “desinfeliz”...  Pode isso?!

            - Olha, meu tio, esta sua história é, no mínimo, tenebrosa! Que eu saiba, isso nunca foi relatado por ninguém...

            - Pois é como eu digo: o diabo da imprensa sempre encobriu o episódio. Sabe como é? Eles não queriam chamar a atenção de outros cangaceiros para o município, senão...

            - Ah, tio Menezes, o senhor fez tudo isso sozinho?! Como pôde?

            - Não sei. Só sei que foi assim!

            Cá pra nós, meus leitores, eu nunca engoli essa escandalosa história do “coronel”. Mas, o fato é que ele era um homem de palavra. Lá, isso era! E olha que eu tentei, por todos os meios, checar a veracidade com o meu pai e com os outros tios. Eles nunca confirmaram e nem desmentiram. Preferem, simplesmente, não tocar no assunto. Ficam aborrecidos e dizem até que “isso não é assunto para se conversar...”

            Bem, o que sei é que já se passaram uns vinte e poucos anos desse memorável encontro com o “coronel”. E, até hoje, confesso, estou com uma pulga atrás da orelha!

            “Mas, o que esta história tem a ver, Carlos?”, perguntarão os mais incrédulos. É, minha gente, tudo isso me veio à memória esta semana, quando adquiri o DVD: O Auto da Compadecida. Meu Deus do Céu, que obra-prima! Só mesmo o sertão nordestino é capaz de nos presentear com uma novela dessa qualidade. Ariano Suassuna, o autor, deve estar rindo de felicidade. Pudera! A adaptação que foi feita a partir da sua obra está impecável, valorizando cada diálogo e cada personagem do seu fabuloso trabalho.

            Guel Arraes, o extraordinário diretor que fez a adaptação, conseguiu arrancar dos talentosos atores todo o potencial dramático e humorado dessa “fábula nordestina”.

            O que posso dizer é que ao assistir aos dois espetáculos, o filme e o seriado feito para a TV, lembrei-me muito do tio Menezes, o “coronel”. Parecia até que eu estava vendo o “homem” encarnado no papel de Chicó e, às vezes, no de João Grilo. E a cada mentira cabeluda contada por Chicó, eu conseguia ver, inclusive, o sorriso cínico do “coronel” estampado na minha frente. Era como se ele estivesse me dizendo: “Olha, seu filho de uma égua, você acha que pelo fato de ter vindo lá do sul maravilha, cidade de frescos, tem o direito de desconfiar da gente daqui?!” E eu, descadeirado com a pergunta, apenas balanço a cabeça concordando com o homem...

            A última lembrança que tenho do encontro com o “tio velho de guerra” foi quando ele me explicou a origem do seu nome, Ezequiel. Segundo ele, este era o nome de um dos irmãos de Lampião. Talvez por isso, quem sabe, o “coronel” não tenha dado o tiro fatal no cangaceiro Lampião, em respeito ao nome. É que, segundo a tradição cearense, isso traria mau agouro para a família... Sabe como é?!

            É bem possível que algum desconfiado leitor possa perguntar: “Ô, Carlos, isso realmente aconteceu ou é tudo conversa fiada?”

            - Não sei. Só sei que foi assim!