Discografia  básica  de  jazz

 

Quando uma criatura ouve música, é bem possível de que ela já esteja sob o domínio do “encantamento”. Chego a acreditar que neste exato momento ela esteja sendo “tocada”. Uma coisa é certa, convenhamos: é um momento muito especial, raro e de apurada felicidade.  Isto porque a música sempre arrebatou os “espíritos desarmados”. E, por sorte, nós temos uma boa quantidade deles pairando por aí.  Estão em todos os cantos. Estão em todos os ritmos. No entanto, creio que é no jazz que esses espíritos ficam completamente à vontade: soltinhos! Não que os outros ritmos deixem de oferecer “deleite”, mas é que o jazz parece “encarnar” todos eles... Talvez por conta do seu sofrido “nascimento”. Talvez porque carregue nas notas um sem número de dores acumuladas. De um jeito ou de outro, o que sei é que no jazz eu encontro o meu “porto seguro”. Pois lá estão os meus anjos e os meus demônios. Lá está a minha salvação. Por isso, toda vez que eu me sinto desassossegado, penso logo em ir pra casa. Aí, então, é só botar um puro jazz saindo dos falantes, relaxar na poltrona e a vida toma um outro rumo. Coisa linda!

Sendo assim, eu recebo todos os espíritos do universo com a mais profunda paz celestial. Aleluia... aleluia, irmãos!

 

 

“Olha que coisa mais linda / mais cheia de graça / É ela menina / que vem e que passa / num doce balanço / a caminho do mar...”. Ah, minha gente, preciso dizer mais alguma coisa?! Eis aí a síntese da nossa brasilidade. Ela talvez seja a melodia mais conhecida do mundo. E nada mais mereceria destaque. Nem mesmo a extraordinária performance de João Gilberto, amparada no talento de Stan Getz. Minha nossa! Eta, disquinho que nos enche de orgulho. Antológico. Obrigatório! De quebra, ainda tem a participação de Astrud Gilberto (em estado de graça) e Milton Banana na bateria. Melhor ainda: tem o maestro Tom Jobim no piano! Ufa, o que podem querer mais?

Então, só me resta dizer: quem não gostar do disco, “bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé!” E mais ainda: como diria o poeta Drummond, o sax soprado por Stan Getz em O grande amor me deixa “comovido como o diabo!”

 

CD: 810.048-2 VERVE

 

 

 

Muita gente já gravou a imortal canção de Luís Bonfá, Gentle rain. Sem dúvida alguma, é uma extraordinária melodia, dessas que atravessam a história com a merecida glória. Todavia, devo reconhecer: eu achava que ninguém conseguiria acrescentar mais nada após a comovente interpretação alcançada por Sarah Vaughan... Até que surgiu Judy Niemack. Céus... Que maravilha!

O álbum é francês e se intitula “Blue Bop”. Por sinal, longe de mim qualquer intriga, mas há quem afirme que o falecido presidente, Charles Degaulle, nunca disse que o nosso país “não é sério”. Ao que tudo indica, foi apenas molecagem ou como diriam os militares da época: “coisa da esquerda-festiva”. Pode até ser verdade... mas... nunca me convenceram! O que sei é que este disco custa US$ 13,00, lá nos states. Aqui, porém, paguei por ele US$23,00! Dá para entender? Afinal, a música é ou não cultura para o nosso país? Ou será que a esquerda-festiva estava com a razão?!

 

CD: 009 - FREE LANCE

 

 

 

A voz que sai da garganta desse “negão” não está  no script. Impressionante! E, cá entre nós: com certeza o nosso Jorge Ben o chamaria de “Charles, Anjo 45”. Não por conta da idade, creio. Mas que é o “rei da malandragem”, lá isso é! O blue que solta na voz e no piano é puríssimo. Daí, virou titular absoluto do meu time. Como dizia aquele vitorioso técnico de futebol: agora, é ele e mais dez! Basta ouvir a primeira canção do álbum “So goes love”. Intitula-se New Orleans Blues e já nos primeiros acordes sentimos pairando no ar uma baita sedução. Charles Brown canta com uma tremenda intimidade. Passeia na melodia feito aquele velho malandro que sabe o que quer. Suingue purinho!

Aí, chegou a vez de Sometimes I feel like a motherless child. Céus!, confesso: tive até vontade de adotar o “desemparado órfão”, tal a emoção sentida. Afinal, eu sempre tive o coração mole mesmo... Fazer o quê?!

 

CD:  314.539.967-2 VERVE

 

 

 

No fundo, no fundo, amigos, eu devia ter nascido em 1851, às margens do Mississipi, em New Orleans. E ao completar seis anos de idade, receber um trompete de presente de aniversário. Mas, paciência, eu nasci em 1951 e às margens do barrento Jaguaribe, no velho Ceará. Não recebi presente algum. Quem sabe, apenas um aperto de mão? Não, não estou a reclamar da infância distante. Tampouco das minhas raízes. É que esse uísque paraguaio me pegou de jeito e botou as emoções na roda. Sabe como é: ouvir Chet Baker cantar Almost Blue, quem há de resistir? O que sei é que esse disco me custou os olhos da cara. Tive até que ir ao meu gerente do banco rever as aplicações. É bem verdade que aplicação de pobre recebe outro nome: empréstimo ou penhor. Mas, deixa pra lá... A desculpa esfarrapada que inventei para o gerente Toninho me emprestar algum, valeu a pena: Chet Baker!

 

CD:221158-2 EVIDENCE