Discografia  básica  de  jazz

 

Há quem diga que o "verdadeiro jazz" morreu muito jovem, pois viveu pouco mais de duas décadas. Algo em torno de 1914 a 1938... por aí. Proclamam que depois disso o jazz foi reencarnado em outros ritmos... porém, desvirtuado. Honestamente, não concordo com essas opiniões. Até porque, convenhamos, os anos 40 e 50 foram extraordinários em produções melódicas e intérpretes maravilhosos. O cool jazz, por exemplo, nasceu logo após a morte de Charlie Parker (em 1955) e perdura até hoje. Graças ao talento de músicos como Chet Baker, Lester Young, Stan Getz, Paul Desmond e tantos outros, pudemos ouvir belíssimas composições que - juntamente com swing, o bebop e o imortal blues - sempre fizeram a alegria da “galera”. Na verdade, chego a pensar que tais opiniões se baseiam no fato de que o cool jazz sempre foi encarado como uma música “cerebral” e feita por brancos. E aí, novamente, discordo! Meus Deus, quem ouve o trompete “lamentoso” de Chet Baker ou o sax “triste e intimista” de Stan Getz, com certeza há de sentir que ambos os corações pulsam mais que os respectivos cérebros, sejam negros ou brancos! Pura emoção, isso sim! O resto, pelo amor de Deus, é “história da carochinha” ou coisa de gente invejosa, que jamais criou algo belo na vida...

Portanto, meus amigos, o que acredito mesmo é que o jazz nunca morreu. Ou, então, é feito “aquele” gato: tem sete vidas!

 

 

Eu tenho uma amiga que adora vocalistas. Até aí, estamos de acordo. Eu também gosto. Mas, o diabo é que ela só ouve pagode. Olha, minha gente, não tenho nada contra os “pagodeiros”. É que, simplesmente, não faz o meu estilo de música. Soa tudo igual...

Até que um dia, às vésperas de um Natal, eu tirei o seu nome em um amigo-secreto, cujo presente deveria ser um CD. “Céus, estou em apuros”, pensei. “Como é que eu me saio dessa enrascada?”

Fui para casa e fiquei em pânico. Já quase desistindo, entrei em uma loja de discos e varri todas as prateleiras. Após algumas horas, bati os olhos nesse CD do Tony Bennet e Bill Evans. Ups.. dará certo?!

Bem, acabei levando o disco, embora com muito temor. Mas... não é que ela adorou?! Falou-me maravilhas do disco. Aí, acabei me convencendo e comprei um para mim. Meus amigos, confesso: é simplesmente lindo! Ouçam My foolish heart ou Days of wine and roses e, certamente, concordarão comigo. Vale a pena!

O único “probleminha” é que ela, também, tirou o meu nome no amigo-oculto... e, adivinhem qual foi o disco que eu ganhei?! Argh... pagode!!!

 

CD: OJCCD - 439-2 FANTASY

 

 

 

Eu havia dito ao Gérson: amigo, você precisa conhecer a canadense Diana Krall. O que ela está produzindo de excelente jazz não está no mapa! Além de boa pianista, tem uma belíssima voz. Até parece uma negra, tal a intimidade com que passeia pelos blues e baladas. E é interessante perceber a trajetória dessa turma. Diana começou estudando piano clássico na Berklee College of Music e teve a influência, segundo ela mesma, de Fats Waller, Peggy Lee, Julie London e Nat King Cole. Quer mais?!

Sim, eu dizendo, então, ao Gérson: o último CD dela é algo antológico. A gravação de When I look in your eyes é definitiva, alcançando extraordinária “dramaticidade”. Juro: há muito tempo não me emocionava tanto com uma canção! Dessas de que somos capazes de repetir algumas vezes, sem cerimônia!

I’ve got you under my skin é outra conhecida melodia que adquire especial interpretação na voz de Diana Krall. Ao ouvir a melodia, lembrei-me de uma antiga namorada. Ah, vocês nem imaginam: eu e ela, ali, abraçadinhos no banco detrás do carro. Falando muito pouco. Apenas um som ofegante e alguns murmúrios...

 

CD: 050.304-2 VERVE

 

 

 

Vocês conhecem aquela história do sujeito que foi ao Maracanã com a camisa do Flamengo e quis assistir ao jogo na torcida do Vasco? Pois é. Às vezes, eu me sinto assim. Eu explico! É que eu já possuía mais de duzentos discos e não havia ainda comprado nada do famoso Duke Ellington. Os amigos já me olhavam de lado, desconfiados que estavam com o meu gosto jazzístico. E eu sem saber o que dizer, sem coragem para declarar o que achava da música de Duke. (Para mim, ela é cansativa e sem emoção. Tô falando baixinho para que nem todos me ouçam... Vocês me entendem, né?)

O tempo foi passando e eu fiquei mais eclético. Até mais “tolerante”. Novamente esbarrei com discos de Duke. Sua música, ainda assim, não consegue chegar ao meu coração. Sou capaz de ouvir, perceber talento e muita técnica. Mas... não me transporta. Que me perdoem os fãs de Duke. De nada vale ouvir uma música, se não nos arrebata e nos faz sonhar e sonhar!

Agora, devo dizer: continuo aqui aguardando ansioso que alguém me “empreste” uma camisa do Vasco. Afinal de contas, não estou mais em idade de correr “risco de vida”, não acham?!

 

CD: GRF-039 DOUBLE PLAY

 

 

 

Thelonious Monk foi um desses extraordinários pianistas que ousou bem mais do que todos no jazz. Sua melodia tem acordes sincopados e, por vezes, dissonantes. Talvez, por isso, tenha sido “relegado” pela velha guarda. Certa vez, um crítico afirmou: “A música de Thelonious é como dar um passo no vazio em plena escuridão”. Pode ser. Afinal, Monk foi rotulado de excêntrico, enigmático, até de louco. Porém, genial!

Verdade é que não se pode ouvir as canções de Monk a qualquer hora. É preciso concentração e estado de espírito. Caso contrário, ficamos fatigados já na terceira ou quarta faixa do disco.

Foi preso sob falsa(?) acusação de posse de drogas no início dos anos 50. Indiferente, continuou a sua trajetória, compondo memoráveis canções. Ask me now é uma delas: belíssima!

Monk exerceu muita influência em outros grandes pianistas. Até Oscar Peterson reconheceu isso em uma entrevista.

Este álbum, intitulado Solo Monk, foi gravado em 1964. Chamo a atenção para These foolish things. Temos aí o verdadeiro Thelonious Monk: bem solto, inventivo e... apaixonante!

 

CD: 471.248-2 COLUMBIA