Discografia  básica  de  jazz

 

Foram muitos os músicos de jazz que sofreram com o uso das drogas. Billie Holiday, por exemplo, experimentou um declínio agonizante. Tanto que, em dado momento, ele declarou: “Tudo que as drogas podem nos trazer é a morte. E a morte é rude e lenta!” Chet Baker foi internado, algumas vezes, para tratamento contra a heroína, e pouco adiantou. As diversas prisões alteraram profundamente a carreira dele. Tornou-se uma criatura triste. Acredita-se até que a sua morte, em Amsterdam, tenha sido suicídio. Charlie Parker, outro fabuloso ícone do jazz, sentiu na pele a aspereza da vida ao encontrar-se com as drogas. Miles Davis também, e muito do seu talento se esvaiu, assim como a sua própria vida. Eu ainda poderia citar dezenas de outras “vítimas”, mas me nego a essa divulgação em respeito ao jazz! É muito duro aceitar tudo isso sem se consternar e sem se indignar. Foram carreiras e mais carreiras prejudicadas em nome de uma “suposta” inspiração. Não! Positivamente não é por aí que se encontra a chama da arte e do talento, muito embora sejamos “equivocadamente” benevolentes, quando se trata de grandes músicos. Sou profundo admirador da “obra” desses gênios, mas repudio esta escolha em suas vidas pessoais. Desculpem-me se os decepciono com revelações tão duras, prezados leitores. Não sou “patrulheiro” e sim professor. E em 30 anos de magistério, creiam-me, presenciei dramas terríveis envolvendo jovens dependentes de drogas... É triste. Muito triste!

 

 

Eu acabara de dar uma manhã inteira de aulas no Colégio Santo Agostinho – Leblon, no Rio de Janeiro. Excepcionalmente, teria a tarde de folga, sem nenhuma aula particular ou prova para corrigir... ufa, até que enfim! 

Por conta disso, resolvi dar um pulinho no simpático Shopping da Gávea. Assim eu almoçaria no “árabe” e depois esticaria as pernas olhando as novidades. Agora, devo confessar: aquele carneiro recheado com farofa de hortelã, arroz com passas, gergelim e grão-de-bico é de matar guarda de trânsito! Após isso, devemos concordar, só mesmo uma boa rede cearense para purgar as culpas e aguentar o “tranco”...

Sim... mas eu ia dizendo o quê, mesmo? Ah, claro! A esticada pelas lojas. É verdade, minha gente, há um punhado delas no shopping e no segundo piso, há uma que possui “raridades” em jazz.

Foi lá que encontrei o nosso Barney Wilen. É bem verdade que ele tem um tipo meio estranho, com mais “pinta” de artista plástico francês que de saxofonista. Mas... uma luz “acendeu” e dizia para eu comprar. Fiz muito bem, pois se trata de um disco maravilhoso. Intitula-se French  Ballads. Então, já que dei a pista, vamos lá. Barney nos apresenta a nata do cancioneiro francês, regado com vinho nacional (deles, é claro!) e muito bom gosto jazzístico. Interpreta belas canções de Michel Legrand, Jaques Prévert, Piaf e, de quebra, Django Reinhardt.

Faço, agora, alguns convites. Deliciem-se com a impecável performance em La vie em rose. Percebam a “releitura” que ele faz em What are you doing the rest of your life. E, se não ficarem satisfeitos, poderão até relembrar o passado em Un été 42, trilha sonora de Michel Legrand para o belíssimo filme homônimo.

Antes que eu esqueça: ouçam com atenção especial a faixa 6. É My way, muito conhecida por ter sido cantada pelo Sinatra. Há quem a considere como o “hino à realização”. Pode ser. Verdade é que eu gostaria de cantar para o meu filho, Gabriel, os versos desta canção.  Sentir-me-ia orgulhoso de poder dizer que as tantas coisas que já fiz na vida, “fiz à minha maneira”. Afinal, quantos de nós podemos dizer isso, após 50, 60, sejam lá quantos anos de existência? É tão mais comum fazermos “as coisas” pelo jeito dos outros...

O certo mesmo é que o nosso Barney tocou o sax do “jeito” dele. E muito bem! Por isso, o disco é recomendado até pelo Blue Note. Céus, nem precisava... Bastava ouvir!

 

CD:  014  -  IDA   /   OMD  -  545

 

 

 

Aquele vizinho mineiro, que insiste em cortar a grama às seis da manhã dos domingos, certamente diria: Eta muié danada de boa, sô! Ao menos aí, concordamos.

Etta James é uma dessas damas do jazz, que surgem de 50 em 50 anos. Já tivemos Bessie Smith e Billie Holiday. Tivemos Ella Fitzgerald e Shirley Horn. Muitas mais, para nossa sorte. Cada uma foi capaz de tocar nossos corações de forma especial, capaz de embalar nossos sonhos! Para isso é que servem as “fadas” ou “feiticeiras”.

Etta não é diferente. Possui o mesmo dom de suas madrinhas acima. Com elas aprendeu a arte de interpretar, abrindo o seu baú de tesouros e repartindo conosco. Canta com muita técnica e emoção, como somente uma grande dama é capaz de fazer.

Quando comprei o meu primeiro CD de Etta James, fiquei um pouco confuso. Sentia na voz dela algo mesclado: um pouco de Carmem MacRae, um pouco de Abbey Lincoln, sei lá mais quem... Mas fui me acostumando ao jeitinho dela e, hoje, acho que é apenas ela mesma: linda e cativante! É que a gente tem a mania incontrolável de comparar vozes, pessoas, estilos. Besteira, no fundo. Cada indivíduo é o que é... ou o que pode ser... ou que consegue ser!

Ninguém grava quarenta e poucos álbuns à toa. Ninguém atravessa impunemente quatro décadas fazendo sucesso. Por isso, Etta não precisa provar mais nada. Basta ouvir Love is here to stay, Imagination ou My funny Valentine. O resto ficará por conta do nosso desarmado espírito, se desejarmos alcançar o mais profundo deleite. Basta relaxar os músculos e se deliciar...

Há poucas pessoas na vida que merecem efetivamente estátuas. Grande parte foi construída por conta da descabida vaidade humana. Paciência! No entanto, devo dizer, uma única estátua faria sentido nessa vida. Aquela que pudesse representar todos os gênios da música e das artes plásticas, do cinema e do teatro, da literatura e dos esportes, enfim, uma estátua para “a arte”. Uma grande e merecida estátua. Eterna! Mas enquanto isso não ocorre, enquanto a verdadeira justiça não é feita, façamos como Etta e cantemos aos céus: Someone to watch over me. Quem sabe possam nos escutar? Quem sabe até nos abençoem? Oxalá! Que assim seja, amém!

 

CD: 01.005 / 821.128–2 PRIVATE

 

 

 

Ah, que saudades eu sinto do “nego velho”, Holdemar Menezes... Foi bem mais do que meu tio: foi meu “orientador”, e segundo pai. É verdade que eram irmãos, mas possuíam, cada um ao seu jeito, inteligências e sensibilidades próprias.

Holdemar foi para o “andar de cima”. Imagino, no entanto, que ele preferisse o “andar de baixo”, visto que é mais “avacalhado” e se sentiria mais à vontade! É que o nego velho sempre foi meio marginal, ao menos nas suas fantasias. Na vida real, ao contrário, era um bem sucedido e “respeitável” médico, além de extraordinário escritor. Sua literatura, sim, sempre esteve a serviço do seu lado bandido. Conheci poucos contistas com tamanho talento e versatilidade.

Foi na casa de Holdemar, no final dos anos sessenta, que fui “apresentado” a John Coltrane. No seu pequeno escritório havia um acervo de jazz de fazer inveja. Meu Deus, quantas “descobertas” experimentei a partir de nossas conversas? Por sua indicação, tive contato com os grandes clássicos da literatura e do jazz. Naquela época pouco ouvira falar em Camus, Kafka, Sartre, Dostoievski, tanto quanto de Miles Davis, Chet Baker, Billie e outros. Porquanto meu pai, meu grande guru, era amante da música erudita, e sua literatura predileta sempre fora filosofia e política. Papai me apresentara Wagner, Mozart, Bach e também Marx, Marcuse, Nietzsche e Hegel. Nossa... Foram magníficas descobertas!

Certo dia Holdemar me disse: “Carlos, você conhece as baladas do Coltrane?” Claro que não “conhecia”. Então, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Incrível. Fantásticas interpretações! Somente após ouvir aquelas baladas é que fui “compreender” o que era elegância e bom gosto no jazz. No meu imaginário, Coltrane tocava Say it (over and over again) vestido a rigor, tal era o finesse com que ele soprava o seu sax. Desde então, nunca mais pude me separar de Coltrane, e nem das lembranças que carrego do nego velho...

Onde quer que esteja, meu tio, receba o meu beijo e o meu reconhecimento, já que ainda tenho a oportunidade de poder beijar e agradecer ao meu velho pai, seu irmão!

 

CD: 229.254.607–2 COLUMBIA (SONY)