Discografia  básica  de  jazz

 

As primeiras expressões musicais identificadas como jazz foram as “canções de trabalho”, manifestadas no fim do século XVIII, nos EUA. Apareceram no sul, nos campos e lavouras, onde os escravos negros celebravam qualquer acontecimento. Tudo era pretexto para cantos, danças, lamentos ou comemorações. Os motivos iam dos gritos de desafio, a um casamento, um funeral ou até grandes “feitos”. Tempos depois, por conta da dura jornada que mantinha os escravos atrelados aos martelos nas minas, surgiram os spirituals (influência dos cânticos religiosos dos senhores brancos) e os primeiros blues. Belíssimas canções se perpetuaram, muitas delas evocando crenças e lendas. Há uma famosa que “destaca” a bravura de John Henry, escavador negro que, de acordo com a lenda, desafiou uma perfuratriz a vapor para uma competição. Segundo a mesma lenda, John Henry, com o seu vigoroso martelo, ganhou a disputa, porém morreu! Nunca se soube se morreu pelo esforço desumano ou se pelo desmoronamento ocorrido no interior da mina. Pouco importa. Heróis nem sempre precisam da “real” verdade. O resto, meus amigos, a história se encarrega de "reconstruir"!

 

 

O seu nome bem que poderia ser Sarah “Virtuose” Vaughan, tal a capacidade de interpretação. Meu Deus, que maravilha é viver! Só em ter escutado a minha querida Sarah cantando Misty no palco do Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, valeu-me a “passagem de ida”. Seu carisma é algo impressionante: a plateia ficou simplesmente magnetizada. E ela na sua, com um largo sorriso estampado na cara, passeando pelas “oitavas” como quem passeia nos Jardins do Éden. Talvez por isso a apelidaram de Divine. Por mim, tudo bem: a justiça foi feita e a nossa Sassy para sempre será divina.

Neste imperdível disco, Sarah é acompanhada pelo talentoso Oscar Peterson (piano), pelo “mágico” Joe Pass (guitarra), Ray Brown (contra-baixo) e Louie Bellson (bateria). Convenhamos: é muito mais que uma “reunião”, minha gente, é “complô”!

My old flame, Body and soul, You´re blasé, Easy living e More than you know são algumas pérolas presentes no disco. Ora acompanhada por todos os músicos, ora só com um único instrumento, e lá vai Sarah brincando com  as  notas. Com todas elas!

“Nota dez! Nota dez!”, daria aquele exultante jurado para este disco. É  só  confirmar.

 

PACD - 2310-821 PABLO

 

 

 

Era o início dos anos 60 e eu tinha apenas 10 anos. Nunca imaginaria que o sonho de minha irmã mais velha – “Algum dia meu príncipe chegará!” – fosse o tema do disco de Miles Davis. Como eu saberia que um sonho pode ser tocado? De fato, pode! Não por qualquer um. Não por qualquer instrumento. Somente por ele. Somente pelos lábios “mágicos” de Miles Davis.

Sua música foi como a sua vida: estranha, conturbada e contraditória. Mas, antes de tudo, extraordinária!

Seguramente, ele foi o músico mais reverenciado da história do jazz. O mais criativo e o mais abusado também, pois até “de costas” ele já tocou para plateias atônitas. Foi muitas vezes malcriado e irreverente. Mas, sempre impecável. Miles Davis era assim!

Someday my prince will come é o nome do disco e da primeira faixa. É uma verdadeira obra-prima. Com direito a participação de Coltrane. Seguem-se Old Folks, Drad-Dog, Teo e o fantástico “hit” I thought about you.

Em sua fase final, Miles fez incursões em outros ritmos. Quem sabe, fosse apenas uma busca por algo mais!? Algo que desse algum sentido à sua vida, que lentamente se esvaía. Um triste momento, é verdade, para aquele que só merecia aplausos...

 

CK-40947 -COLUMBIA

 

 

 

Foi na aconchegante casa do amigo Miguel Calmon - brilhante psicanalista - que eu conheci as primeiras canções de Nina Simone. Isso aconteceu lá pelos idos dos anos 80 (Miguel, onde anda você, mano velho?). Fiquei impressionado com a voz lamentosa que saía deste fabuloso disco, com 20 das melhores canções de Nina. Vale a pena conhecer, pois ninguém cantou Ne me quitte pas como ela. Depois disso, ninguém mais poderá “deixá-la”...

Confesso que sou um fã ardoroso de Billie Holiday. Contudo, meu coração e meus ouvidos balançam ao ouvir a “sentida” interpretação de Nina em Strange Fruit. Para mim, trata-se da mais “dura” letra de melodia que já ouvi. A “fruta estranha” era, na verdade, o corpo pendurado na árvore de um dos tantos negros enforcados no Mississipi do século passado. Eram tempos difíceis!

Nobody knows you when you´re down and out é outra fabulosa canção em que ela derrama toda a sofrida negritude. Assim como ficamos arrepiados com a harmônica (gaita) que acompanha Nina em Tell me more and more and then some. Maravilha!

Destaque, também, para a interpretação de Nearer blessed Lord. A voz de Nina segue a mesma cadência dos cânticos religiosos presentes nos consagrados spirituals.

 

CD - 846663-2 -MERCURY

 

 

 

Dizem que aquela atmosfera carregada de fumaça de cigarro e cheiro de uísque de “segunda”, com um chorado “blues” na voz de um crooner e uma carinhosa mulher sussurrando em nosso ouvido, talvez só aconteça nos filmes. Poxa, que pena! Sempre sonhei com isso. No fundo, acho que nasci no lugar e tempo errados...

No alto dos seus cento e “muitos” quilos, Joe Turner é o mais conhecido cantor de blues do Kansas. E tem um estilo displicente de soltar a voz, como quem não está nem aí para o mundo. Para ele, cantar ou chupar cana-de-açúcar são atividades corriqueiras. Ouçam, então, Everyday I have the blues e me entenderão. A facilidade com que ele passeia por este “suingado” blues não está no gibi!

Foi acompanhado por Sonny Stitt (sax), o fantástico guitarrista Pee Wee Crayton, J. D. Nicholson (piano), Charles Norris (contrabaixo) e Washington Rucker na bateria.

Ah, confesso: adoro o jeitão moleque com que “Big Joe” canta Lucille. No meu imaginário, é como se eu estivesse nos tradicionais “inferninhos” de Kansas City, onde há sempre um cantor de blues debruçado sobre a guitarra deliciando as plateias... Olha, que me perdoe o estimado John Lennon: mas, o sonho, ainda não acabou.

Bendito seja o jazz!

 

OJCCD-634-2 (2310-818)  -  PABLO