Discografia  básica  de  jazz

 

Nos meados do século XIX, havia uma grande moda na música dos negros do sul dos Estados Unidos: atores brancos pintavam o rosto de preto e faziam imitações de danças e cantigas das fazendas do Sul. De forma quase sempre jocosa, esses atores contavam piadas e representavam os "crioulos". Era o início dos irreverentes espetáculos dos minstrels, uma forma de divertimento que viria a imperar nos palcos americanos durante mais de cinquenta anos. Seguramente, nos dias de hoje, pouquíssimas pessoas tiveram a oportunidade de assistir aos autênticos espetáculos desse gênero. Sendo assim, fica difícil imaginar o papel que tais shows desempenharam na vida americana. No entanto, sabemos que diversas companhias ambulantes de minstrels percorriam as cidades e aldeias, levando na bagagem um mundo resplandecente, melodioso e bem humorado à plateias ávidas de entretenimento. Por isso mesmo, a chegada de uma companhia, sempre anunciada com cartazes espalhafatosos, provocava um verdadeiro delírio nas pessoas, até mesmo nas aldeias mais pacatas. No início, todos os minstrels eram brancos, mas, no fim da Guerra Civil, também os negros formaram suas próprias companhias. Aliás, uma baita ironia: atores negros imitando os seus "imitadores"!

 

 

Há quem afirme que o "acidente" ocorrido com Chet Baker, em Amsterdam, foi suicídio. Segundo esses, Chet se desencantara da vida há mais de uma década. Por isso mesmo, os seus últimos discos foram verdadeiras "mensagens do além". Pois é, minha gente. Eu não sei o que vocês pensam a respeito. De minha parte, eu afirmo com convicção: isso pouco altera o meu estado de espírito. Afinal, eu sempre me emocionei com as interpretações de Chet, antes ou após a sua morte. E digo mais: hoje em dia, por conta de uma visão mais "espiritualista", eu chego a acreditar que Chet já cumprira a sua missão, aqui nesse plano, bem antes de sua morte física. Como legado, ele nos proporcionou uma verdadeira "viagem interior". Ao acolhermos sua música, percebemos que somente ele é capaz de nos pôr em contato com aqueles que já fizeram a "passagem". Afortunadamente, ele nos revela em cada nota a "presença" dos nossos entes, anjos e querubins...

O que sei dizer é que após a "partida" de minha querida mãe, ouvir White Blues passou a ter outro ritual, talvez mais "elevado". Por vezes, Chet me faz sentir a agradável sensação de acariciar a mão e os lindos cabelos de Dona Jarina... minha querida mãe!

 

CD: 74321 451892 – BMG

 

 

 

É verdade, meus amigos. Eu bem sei que ando "saudosista" por demais... Alguns dirão que é por conta da idade, que beira os 55. Sei lá. O fato é que eu não posso ouvir um disco antigo e logo, logo começam as lembranças. Às vezes, é por causa de algum aspecto especial ou fato inusitado ou coisa que o valha. Mas, no caso desse disco, eu confesso: a "culpa" foi do meu filho Gabriel. Deixe-me explicar. É que eu estava lendo um artigo sobre o magnífico filme, As invasões bárbaras, de Dennys Arcand, e me lembrei do Gabriel. Já fazia mais de meia hora que ele estava na sala de música, muito quietinho por sinal. Convenhamos, para uma criança de três anos, bem “ativa”, isso é o mesmo que uma década para nós adultos. Pois bem, fui ao seu encontro e lá estava o Gabriel fuçando os meus discos. Quando cheguei, ele olhava fascinado para a capa desse disco. Ao perceber a minha presença, assustado, virou-se e disse: olha, papai, eu vou tocar essa música para você. E você vai ficar bem feliz!

É claro que perdi coragem de lhe advertir pela bagunça que fazia. Apenas coloquei o CD no aparelho e abracei-me a ele. Ao ouvir as canções, aí, sim, eu pude confirmar a felicidade que o Gabriel já previra...

  

CD: 8258 - AUDIO-FIDELITY

 

 

 

Eu estava na entrada do bar e, sem perder tempo, o amigo Cássio Moura foi logo me avisando: Carlos, preste toda a atenção no “pretinho” do trompete. Amanhã, lá no shopping, você me dirá o que achou. Certo?! Eu respondi sim, enquanto procurava um bom lugar para me sentar e apreciar mais uma jam session do Quarteto. Ao microfone, Cássio anunciava o convidado especial daquela noite: Jorginho do Trompete. Era um baita negão que, pelo corpo e pelo largo sorriso, parecia ter parentesco com Louis Armstrong. Será ele "reencarnado"?, pensei com os meus botões. Na dúvida, eu pedi ao garçom para trazer o balde com cervejas. Imediatamente!

Aí, então, ele começou a soltar o verbo. Sempre sorrindo. Até que chegou a vez de Conceição da Barra. Meu Deus do Céu, que belíssima composição! Puro lirismo, isso sim, arremessado do trompete daquele "pretinho". E ele, virtuoso, passeava pelo salão do bar cumprimentando cada espectador com um par de olhos arregalados. Sem nenhuma cerimônia, muito emocionado, eu me abracei a ele e beijei sua enorme bochecha. Afinal, as cervejas já estavam na corrente... Do outro lado do bar, Cássio me observava e, também com o olhar exultante, confirmava a sua sentença: eu não disse que o “pretinho” era danado de bom?!

  

CD: 0021 – PMPA

 

 

 

Uma coisa é certa: tem um bocado de gente metida a besta nesse mundão de Deus. Lá, isso tem! No entanto, sejamos justos, algumas delas nem tiveram tempo para serem ouvidas e se explicarem. Sabe como é: o povão não perdoa "nariz empinado" e sapeca logo alguma difamação contra a criatura. Ele é assim por causa da esposa, dirão alguns. Eu não disse que ela é um bocado esquisita?, outros dirão. Pois muito bem. Como eu não sou nenhum “santo”, já devo ter feito alguma "injúria" dessas. Ao menos, lembro de uma que fiz à Carmen McRae. Eu estava na casa do amigo Gérson e ao ouvir os primeiros acordes de Imagination sentenciei, sem pestanejar: "ela é uma excelente cantora... porém... como é arrogante!"

Bem, meus amigos, queiram me perdoar. Afinal, ninguém é perfeito. Tampouco estou aqui para me arvorar como "guardião" da sensatez. É... eu também dou as minhas mancadas e, como qualquer mortal, digo algumas sandices... Paciência, fazer o quê?!

Por sorte, eu sou humilde o suficiente para admitir um equívoco e assumir o erro. É bem o caso da Carmen McRae. No fundo, o que importa é que ela é uma magnífica intérprete, isso sim! Para não pairar dúvida, ouçam o que ela, Joe Pass, na guitarra e Ray Brown, no contrabaixo fizeram neste imperdível disco.

 

CD: 15.745 - LASERLIGHT