Discografia  básica  de  jazz

 

Existem muitas lendas no jazz, sem dúvida alguma. É bem verdade que algumas delas são complicadas de se explicar. Talvez a mais difícil seja quanto à própria origem do jazz. Há quem afirme que o jazz nasceu em Nova Orleans, quem sabe porque fosse uma cidade alegre e repleta de músicos negros?! Muito embora essa ideia seja “tentadora”, no entanto, devemos reconhecer que Nova Orleans não foi o berço dessa maravilhosa música. Na realidade, o jazz brotou em vários cantos daquele país. Simultaneamente. Em Nova Orleans, por exemplo, as creole bands apareciam no cenário musical, ditando o ritmo. Já em Chicago, Kid Ory fazia um sucesso estrondoso. Enquanto isso, Fats Waller seduzia Nova Iorque, Louis Armstrong encantava os passageiros dos  no Mississipi e Count Basie e Jimmy Rushing faziam a festa em Kansas City. Ou seja: existiam grandes músicos espalhados pelos quatro cantos dos Estados Unidos. Daí, então, cada cidade procurou tirar uma “casquinha”, reivindicando o status de “berço do jazz”. Mas o que importa mesmo é que o jazz nasceu lá nas terras do “Tio Sam”. Depois disso, sim, ele invadiu todas as fronteiras no mundo e se firmou como música universal. Por sinal, com muito mérito!

 

 

Olha, minha gente, eu já estava sendo considerado como “traidor” pela turma aqui do bairro. Alguns vizinhos, vejam vocês, nem sequer me cumprimentavam mais. Olhavam-me de banda e sussurravam “coisas” que eu não conseguia ouvir. Céus, por quê? - perguntarão os desavisados leitores. Eu explico. É que fiquei um bom período sem escrever para a revista, por causa do nascimento do meu querido filho Gabriel. Aí, sabe como é, a gente fica todo entretido com a criança e não pensa em mais nada, a não ser curtir o rebento e exibi-lo orgulhosamente aos parentes. Com isso, eu acabei optando por estilos mais leves e intimistas. É bem o caso de Henri Salvador, um francês danado de bom, nascido na Guiana. Meu Deus, que maravilha de disco. Puro suingue, isso sim! Suave e acolhedor, como o abraço do meu pequeno Gabriel...

Muitas vezes, devo confessar, eu pus o CD a tocar só para embalar o sono dessa criança. É que ao ouvir a voz suave de Henri cantando Jardim, Gabriel “construía” os seus mais belos sonhos, quem sabe, repletos de fadas...

Caramba, verdade é que agora me bateu uma tremenda dúvida: será que eu virei um “pai babão”?

 

CD 5367102 - BLUE NOTE

 

 

 

 

 

O nosso saudoso Nelson Rodrigues costumava dizer, em tom quase profético, que toda unanimidade é burra!. Será?! João Gilberto, pelo visto, não atestaria tal sentença, uma vez que ele carrega diversos títulos: de “encrenqueiro” a gênio, de “impostor” a símbolo da bossa-nova! E aí, o que vale, então? Sei lá. Para mim, ele é o maior talento da música brasileira. Canta feito passarinho: suave e “amoroso”. Aliás, esse é título do CD. Muito feliz, por sinal. Se não acredita, então, ouça o nosso João interpretar ‘S wonderful. É de tirar o chapéu, minha gente! Isso sem falar da comovida Estate, em que ele é capaz de nos provar que o mais difícil é ser simples. Besame mucho, por exemplo, adquiriu com ele uma ternura jamais encontrada por aí, nem mesmo naquela maravilhosa loura, a canadense Diana Krall.

Portanto, meus amigos, de nada adianta torcer o nariz para o baianinho. O melhor a fazer é pôr de lado as implicâncias e os preconceitos. Afinal, João Gilberto não está aqui para agradar a gregos ou troianos e sim para cantar. E isso, cá pra nós, ele faz muito bem. Como poucos são capazes!

  

CD 45165-2 -WARNER BROS

 

 

 

Dizem por aí que “coletânea” é a mais bem inventada “armadilha” da indústria fonográfica. Segundo eles, os produtores recorrem a esse expediente para surpreender os incautos, “empurrando” produtos de discutida qualidade. Olha, pode até ser verdade. Mas, convenhamos, vez por outra o tiro sai pela culatra. É bem o caso deste disco, Women. Meu Deus do Céu, então, benditas sejam as mulheres. Porquanto somente elas conseguiriam tamanha proeza!

Para calar a boca de alguns “machistas” renitentes, vejam vocês, a produtora colocou em campo um time de primeira: Diana Krall, Shirley Horn, Helen Merril, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, Carmen MacRae e muitas mais. Por ser um álbum duplo, o disco nos possibilita ouvir diversas vocalistas, com estilos e personalidades próprias. O resultado foi excelente, harmonioso e, o que melhor, variado. Ou seja: tem “crooner” pra todo gosto, minha gente. O que posso dizer é que me deliciei um bocado ouvindo Abbey Lincoln interpretar a sentida canção Brother, can you spare a dime? Tive até vontade de levantar um empréstimo e oferecer “algum”... Sabe como é: eu tenho um coração mole mesmo... fazer o quê?!

 

CD 73145209742 - VERVE

 

 

 

Outro dia desse eu conversava com o Marcelo Borret, brilhante professor de História aqui de Florianópolis, e dizia que os meus artigos servem muito mais para mim do que para os leitores. Aí ele me perguntou: como assim, Carlos? Eu respondi: é que por meio deles eu tenho feito uma série de expiações e, assim, tenho podido me “desculpar” com algumas pessoas que passaram pela minha vida. Não que eu tenha feito algo nocivo a elas, espero. Mas, com certeza, eu podia ter feito mais. Veja o caso da Rosângela, uma antiga namorada, que me apresentou esse fabuloso disco do Style Council, intitulado Café Bleu. Minha nossa!, lembro bem que os nossos primeiros encontros amorosos começavam sempre ao som de Blue Café e logo a seguir, vinha The Paris Match. Pois é: a vida seguiu e cada um tomou o seu rumo! Mas o que eu queria dizer, meus amigos, é que fiquei com a sensação de não ter devolvido à Rosângela as grandes descobertas que ela me ofertou. Daí, esse sentimento... Talvez, somente agora eu possa quitar aquela antiga “dívida” e declarar que, após vinte e poucos anos, eu ainda ouço com enorme prazer o disco desse desfeito grupo, Style Council. Então, só me resta dizer: obrigado, Rô. Muito obrigado!

  

CD 817535-2 – POLYDOR