Discografia  básica  de  jazz

 

É interessante perceber algumas mudanças na história do jazz. Tomemos o exemplo do saxofone. Hoje, talvez seja o instrumento mais representativo e mais associado ao jazz, não é verdade? Mas, curiosamente, nem sempre foi assim. Na realidade, o saxofone foi introduzido de forma muito lenta na música norte-americana. Muito embora ele exista desde a metade do século 19, até meados da década de 20 do século passado era considerado um instrumento impróprio para o jazz. Para se ter uma ideia dessas dificuldades, até 1923 Coleman Hawkins era o único saxofonista-tenor que tocava jazz, ano em que gravou com Fletcher Henderson (um dos responsáveis pelo surgimento do swing e das primeiras bandas). Até então, o saxofone era bastante comum somente nas “charangas” (pequenos grupos ou orquestras não muito “afinadas”). Todavia, ele era malvisto pelos músicos de jazz... Com o passar do tempo, o sax “reivindicou seu espaço” e passou a ocupar um lugar de destaque. E assim, fabulosos músicos abraçaram esse instrumento e extraíram dele um som fenomenal. Ufa... sorte a nossa!

 

 

Se existe algo terrível nessa vida, sem dúvida alguma, é “contabilizar perdas”. Por sorte, meus amigos, eu ainda não sofri muitas “baixas”, mas que já amarguei o desaparecimento de algumas pessoas queridas, lá, isso sim! Sinto bastante falta do tio Holdemar, grande escritor e amante do jazz. Da extraordinária Thamar Sette, que me ensinou a ser professor. E, também, do maior “fio-desencapado” que conheci, o Juquinha. Ah, que saudades o amigo Juca deixou... “Esculhambado” por natureza, ele não estava nem aí para mundo. Contudo, tocava aquela gaita como poucos! Devo confessar: tive dificuldades em ouvir o disco de Toots Thielemans.  É que o “espírito” do Juca baixava sempre à minha frente.  Irreverente, Juca praguejava ao telefone: “Animal, tu va-vás fa-fazer o que, essa-ssa noite?” (Juca era gago!). Eu apenas sorria e, pacientemente, respondia: vou ouvir você tocar, “santidade”! Que mais posso fazer, além de bater palmas?

Bem, o disco está aí para deliciar os vossos ouvidos, queridos leitores. Mas, no meu caso, devo dizer: mais do que isso, ele abranda as saudades do velho amigo Juca... Saravá, meu irmão!

 

CD: 82160-2 PRIVATE

 

 

 

Conhecem aquela história, “fez sucesso e deitou na cama”? Pois é. Uma coisa eu juro pra vocês: com essa maravilhosa loura, ah, eu adoraria fazer sucesso e... Céus, queiram me desculpar, mas é que Diana Krall revela os sonhos de qualquer criatura. Pudera! Canta uma enormidade, toca um belíssimo piano e, ainda por cima, é dona de uma beleza arrebatadora. Olha, como dizia um velho amigo: “tem gente “sortuda” nessa vida, Carlos!”

No entanto, The look of love não é lá uma “brastemp” de disco. Diana já produziu coisa melhor. Eu, por exemplo, prefiro muito mais o impecável disco, Only trust your heart. Alí, sim, Diana passeia à vontade pelo repertório, soltando “aquela” voz encorpada.

Muito embora esse disco tenha permanecido um bom tempo em primeiro lugar nas paradas musicais, acredito que isto se deva ao fato de o disco ser mais “comercial” que os anteriores. Ainda assim, vale a pena ouvi-lo. A interpretação de Cry me a river está impecável. De quebra, ainda temos a antológica S’wonderful. Quanto a Besame mucho... bem... aí, Diana ficou nos devendo algo...

 

CD: 7314549846-2 VERVE

 

 

 

 

Tá... Tá legal. Eu bem sei que já indiquei um outro disco dele, mas, calma aí, minha gente! É que a minha coleção de discos está se esgotando. E a bem da verdade, não recebo “presente” de ninguém... De mais a mais, John Pizzarelli é craque de primeira grandeza e, portanto, vale o “bis”. Sendo assim, peço que tenham mais paciência comigo!

De toda a forma, apesar de possuir um acervo pequeno, eu acredito que não esteja fazendo “feio”. É bem o caso desse belo disco, Let there be love. O trabalho de Pizzarelli se revela simples, porém, aconchegante! Além disso, nós podemos desfrutar, sucessivas vezes, as consagradas melodias do cancioneiro norte-americano. São baladas bem conhecidas do respeitável público e receberam um arranjo muito refinado e “pessoal”. Pizzarelli, sem dúvida alguma, tem muito bom gosto e consegue arrancar da guitarra uma atmosfera inebriante, romântica. These foolish things, por exemplo, ficou soberba, isso sim! Ao escutar a melodia, dá vontade de chamar “aquela” moça e dançar “coladinho”. Aí, sabe como é? Um monte de mentiras é declarado com profunda convicção. E a “moça”, por sua vez, finge que acredita... Hum... E tem gente que não gosta! Pode isso?!

 

CD: 83518 TELARC (DSD)

 

 

 

Eu tenho um amigo que adora contar “vantagens”. Até aí, tudo bem. É coisa inocente, que não prejudica ninguém. Mas, o diabo é  ele nos arrastar nas histórias, fazendo com que a gente confirme tudo. Já viram, né? Vez por outra, ele escorrega e “nós” é que caímos “andaime”! Foi numa dessas que eu me vi em apuros. Era uma roda de jazzistas e esse meu amigo começou a falar sobre grandes escritores. “Como dizia Samuel Beckett: blablablá”. Um tempinho pra respirar e mais um torpedo: “Conforme afirmou Kant... blablablá”. E a coisa foi indo longe. Até que numa determinada hora, ele citou uma frase de Bertrand Russel e o amigo Ney Deluiz não se conteve: “Ô, Renato! Eu lí a obra inteira dele e nunca vi essa citação. Em que livro está escrito isso? Ou é mais chute seu?” Renato Alvim não se fez de rogado. De bate pronto, sapecou na bucha: “Olha, foi o Carlos que me trouxe essa citação outro dia desses!” Bem... e o que você disse, perguntará aquele leitor curioso e sádico. Ora, eu disse apenas: isso não está escrito em livro algum... Mas, pombas, ele também conversava, né?! Ufa!

Ah, sim, ia me esquecendo: o disco é só de baladas. Beleza pura!

  

CD: 83504-2 TELARC