Discografia  básica  de  jazz

 

A história da sofrida e atribulada vida de Billie Holiday já foi tema de muitos filmes e documentários. Quase todos retratando a infância pobre e amarga da grande dama do blues. É sabido, por exemplo, que os infortúnios de Billie só foram atenuados, em parte, pela profunda relação amorosa que estabelecia com sua mãe. Em seu livro autobiográfico, Billie começa nos chocando: Minha mãe e meu pai eram dois garotos quando se casaram. Ele tinha apenas 18 anos, ela 16... e eu, três”. Pouco depois, seu pai foi-se embora para Nova Iorque, deixando-a desamparada. Com isso, a educação de Billie foi “incumbida” aos parentes, que muito a maltratavam. O que se seguiu, segundo afirmam, virou lenda: Billie mudou-se para Nova Iorque, trabalhou como empregada doméstica, foi prostituta e acabou se tornando a maior cantora do jazz. Certo mesmo é que ela foi uma linda mulher. Habitualmente, vestia-se de branco: sempre a rigor e com uma gardênia enfiada nos cabelos. Era a sua marca registrada! Gravou discos com os maiores músicos existentes e encontrou em Bessie Smith a musa inspiradora de sua fenomenal carreira. Mas, a partir do início dos anos 50, a vida de Billie desceu a ladeira. Fez-se refém do álcool e das drogas e travou uma impiedosa luta contra a dependência à heroína, saindo-se derrotada. Seus últimos anos de vida foram duros e aviltantes. Injustos, até. Afinal, a grande dama tornou-se vítima de um mundo que, desde o início, foi “padrasto” para ela. Faleceu em 1959, com apenas 45 anos de idade!

 

 

O tratamento será rápido e indolor, Carlos. Fique tranquilo. E de mais a mais, tenho aqui um novo disco que você vai adorar!”

Bem, minha gente, só assim eu criei coragem para me deitar naquela cadeira. Confesso: sou profundamente “covarde” na frente de um dentista. Fazer o quê?! Vai ver que em outras vidas eu “aprontei” alguma...

Verdade é que o Paulo Sartori, meu dentista, deveria ser psicólogo, pois tem uma tremenda “lábia” e convence qualquer um a aceitar a dor. Só ele!

O resto ficou por conta do sax de Grover Washington que lentamente foi me anestesiando. A primeira dose foi em I’m glad there is you. Meu Deus, que maravilha. Um tremendo sopro: contido e intimista. E ele segura o clima “noir” até a entrada do belíssimo vocal de Freddy Cole. Mais parece uma daquelas canções de baile de debutantes, aonde se dança de rosto colado e se faz juras de amor à moça... Bons tempos!

Ai, chegou a vez de Overjoyed. Céus, até parei de pedir guardanapo, pois já estava “babando” de todo jeito. E eu ali: literalmente de boca aberta. “Arrebatado” por aquela melodia e sonhando à vontade! E nos meus sonhos, ah! que delícia, ela me oferecia carícias maravilhosas...

O que posso dizer, minha gente, é que até hoje não sei qual foi o dente que tratei o canal. O Paulo jura que foi o último molar. Bem... agora, pouco importa!

 

CD: 2-474.553 COLUMBIA

 

 

 


“Cada louco com sua mania”, não é o que dizem? Pois então, vou contar uma que me ocorreu. Foi no tempo em que frequentava o curso ginasial. Ou seja: é da época que o Mar Morto não estava nem doente. Bem... deixa pra lá. O fato é que eu me apaixonei pela professora de francês. Perdidamente. Só vendo. E ela, durona, só “aceitava” conversas com os alunos se fosse em francês. Caramba, eu mal tinha saído do “cearês”! Mas como cearense é bicho teimoso, que não larga a “rapadura”, não me dava por vencido. E aí estudava feito um louco, decorando até frases inteiras. Só para ter um “tête-a-tête” de dois minutos com ela. Bastava uma oportunidade e lá estava eu: a tout à l’heure, despedindo-me dela sempre com tremedeira nas pernas. Céus... passados tantos anos, até hoje eu me lembro da professora e tenho por ela profunda gratidão.

Ô, Carlos, você está aqui para falar sobre discos e não de paixões juvenis. Céus, queiram me perdoar! Tudo bem... A dica, então, é o disco dessa brasileira radicada na França há muito tempo: Bia. Ela canta feito passarinho e tomou emprestado as canções de Chico Buarque e de Pierre Barouh. Consegue dar um toque pessoal e intimista às melodias. A interpretação de Barbara ficou emocionante. E a memorável canção, Los hermanos, adquiriu profunda dramaticidade, com o acordeão “chorando” em solidariedade. Ficou impecável!

Então, para matar as saudades da querida mestra, só me resta desejar a vocês: bonne chance pour vous, mes amis!

 

CD: SHL 2094 – SARAVAH

 

 

 

Carlos, ouça bem: “O homem tem que seguir o seu rumo, cumprindo a sua sentença!”

Meu Deus, quantas sandices como essa somos obrigados a escutar?! Segundo essas pessoas, parece até que a vida das criaturas é um verdadeiro “carma” e tudo faz parte de um script...  Calma aí, gente!

O que sei dizer é que o “destino” não vem amarrado no cordão umbilical. Muito ao contrário: ele deve ser produzido e conquistado. Muitas vezes, arduamente. Assim sendo, precisamos nos preparar para essa grande peleja. Sem o quê, convenhamos, não há talento que resista. Tampouco existe sabedoria inata! Fosse assim, eu seria um tremendo pintor, uma vez que minha mãe, Jarina Menezes, é uma extraordinária artista plástica. No entanto, eu mal consigo pintar o aro da minha bicicleta...

Então, cá pra nós, não é bem assim que a banda toca. Ao menos, a de Ray Brown, diria o meu amigo Cássio Moura, excelente guitarrista aqui da ilha. É verdade, companheiro, o “mestre” Ray soube criar o atalho necessário e escapar ileso daquelas impostas sinas. Ainda bem!

Nesse novo disco, gravado em 20 bits, Ray Brown convidou diversos vocalistas. Só nego da pesada: Diana Krall, Etta Jones, Dee Dee Bridgewater, Nancy King, Marlena Shaw e Kevin Mahogany. E o que eles fizeram não está no mapa!

Na cozinha, além de Ray Brown, temos o piano de Geoff Keezer e o sax alto de Antonio Hart, entre outros. Coisa linda!

 

CD: 83.441 - TELARC

 

 

 

“Eta, disquinho danado de bão, sô!”, exclamaria o meu amigo Paulo Assis Brasil. É... tem razão, Paulinho, o disco é memorável e deveria fazer parte de qualquer “cedeteca” que se preze. Aliás, a gravação já está completando bodas de prata e, ainda assim, a gente escuta com o maior prazer! É que esse tal de Stan Getz é realmente um “capeta”. Consegue nos fazer sorrir até em velório... E a nossa Miúcha, então, “conversando” com o João Gilberto? Meu Deus, que maravilha! Não é à toa que os gringos, lá fora, até hoje reverenciam a nossa eterna bossa-nova. Pudera! Basta ouvir Lígia ou É preciso perdoar ou Falsa Baiana. Mas, se por acaso houver algum leitor renitente, então, apelo para Retrato em branco e preto. Aí, meus amigos, até o sacristão esquece a missa ao ouvir esta canção! “Pô, fala sério, Carlos”, diria o nosso prezado Dr. Casseta. Céus, desculpem-me. É que, às vezes, a emoção me toma desavisado... Sabe como é?! Embora eu não seja ufanista, percebo que o “espírito brasileiro” está muito arraigado em mim. Mais ainda quando vejo um “peso pesado”, feito o Stan Getz, “beber” a nossa água. E anote aí: depois dele, é verdade, muita gente veio à nossa fonte na certeza de saciar a sede. Chet Baker, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e tantos outros monstros sagrados. É aquele tal negócio: “eles” sabem o que é bom. Agora, só falta o brasileiro reconhecer o seu próprio valor.

Eta, disquinho danado de bão, sô!

 

CD:  2-033.703  COLUMBIA