Discografia  básica  de  jazz

 

Há quem acredite que os negros são dotados de um senso rítmico especial e inato. Segundo esses, a música tem um balanço diferente em todos os lugares onde os negros são maioria. Pode ser. Verdade é que a música negra é mais cadenciada, mais corporal e, ironicamente, bem mais alegre. Irônico, porque, convenhamos: para sublimar séculos de escravidão e muitas dores, eles tiveram que “rebolar” um bocado. Literalmente! Como consequência, tornaram-se os reis do suingue, da espontaneidade e até da malícia na arte rítmica. A “grande herança” sempre foi transmitida de uma geração a outra, muitas vezes, clandestinamente. Eram tempos difíceis. Tempos em que os homens, as mulheres e as crianças usavam a música e a dança como expressão de “fala”. E o que aquelas palavras diziam, meus amigos, inexoravelmente, eram apelos por liberdade e justiça. Um clamor que o homem branco teve muita dificuldade para entender. Como castigo, viu-se obrigado a reconhecer o enorme valor da arte negra. Arte baseada no ritmo e na melodia, nas letras das canções e nas danças... Enfim, arte nascida dessa maravilhosa negritude! E foi preciso muito, muito tempo para que um dia um branco dissesse: “Black is beautiful”!

 

 

Dizem que os sons que existem na natureza representam a melhor “obra” do Senhor. E que “ele” criou o mundo com uma única intenção: que as criaturas pudessem se extasiar com os sons e, com isso, amassem uns aos outros. Pode bem ser verdade. O que sei é que existem algumas melodias esparramadas pelo mundo que atestam essa ideia. Lá, isso sim! Basta ouvir as lindas canções de Donny Hathaway, como A song for you. Ah, certamente vocês concordarão comigo: é um incrível mergulho na alma!

Contudo, a vida de Hathaway foi muito dura. Impiedosa, até. Nascido em Chicago e criado em St. Louis, Donny possuía uma daquelas almas “irreversivelmente conflitadas”. Dono de uma sofrida voz, ele conseguiu expressar a marca de sua inseparável dor nos gospels que aprendeu na infância. E, como poucos cantores, ele legitimou o sofrimento nos cantos e acordes. Talvez por isso, irônica e cruelmente, suicidou-se em 1979, aos 33 anos de idade. Por sinal, a mesma idade “daquele” que tão bem soube homenagear em suas inesquecíveis canções...

  

CD: 782.092-2  ATLANTIC

 

 

Outro dia eu fazia uma caminhada pela orla da Lagoa da Conceição e no retorno para casa, parei para beber água de coco. Foi quando ouvi um lindo som de guitarra. Logo a seguir, surgiu uma voz manhosa e “enfeitiçada”: era Sarah Vaughan, meus amigos, acompanhada por Hélio Delmiro. Ah, aqueles dois conseguiram recuperar todo o fôlego que eu havia perdido na longa caminhada, isso sim! A milagrosa faixa era “Dindi”. Meu Deus, que coisa linda! Até parece que Helinho e Sassy foram criados juntos, tal a intimidade alcançada. Pois bem: movido por um forte impulso, fui para casa disposto a escutar o CD “Copacabana”. E quando chegou a vez de “Bonita”, tocou o telefone. Arre! Podia ser até o “FHC” me convidando para ser o ministro da cultura, mas nem quis saber... Despluguei o telefone, desabei na poltrona e me pus a sonhar e sonhar!

Após algum tempo, aquela mão feminina insistia em me empurrar... Sorrindo, lentamente abri os olhos: era a faxineira querendo passar o aspirador no sofá. Pode isso?!

 

PACD: 2312-125-2 PABLO

 

 

 

Olha, eu já escutei muitas histórias sobre músicos. Algumas, é verdade, viram “lendas” e ninguém garante se ocorreram ou não. Feito aquela do gato de estimação do João Gilberto. Conhecem? Bem... dizem que o João se trancou na suíte do hotel para ensaiar o show do Carnegie Hall. Após quinze horas de ensaio, o fabuloso músico se lembrou que o gato não havia comido. Então, procurou o bichano por todo lado. E nada! Foi quando soube que o gato havia se “atirado” do décimo andar. Ao que se sabe, foi o primeiro suicídio de gato relatado em Nova Iorque...

João Donato é outro extraordinário músico de quem já ouvi diversos “causos”. Mas, deixa pra lá! O que vale é a impecável qualidade de suas canções. Quem não conhece as antológicas Amazonas e A Rã? São melodias de tirar o chapéu: muito suingue, qualidade harmônica e criatividade. O disco se intitula Amazonas e está aí para o deleite de todos. João Donato, bem à vontade, solta o verbo!

Já as histórias que contam dele...  Até parece piada!

  

CD: 203 ELEPHANT REC.

 

 

 

Eu vou cometer mais uma sandice. Mas, deixe-me explicar, antes que algum “pastor” de plantão decrete a minha penitência. É que não gosto do estilo da Diane Shuur. Sinceramente, acho que ela “grita” demais. Vejam bem: eu disse que não gosto do estilo dela e não da voz, que é belíssima. Então, para preservar a minha integridade física (nunca se sabe do que é capaz um fã ardoroso!), devo declarar que considero razoável a escolha do repertório. Porém, verdade é que são raras as canções bem interpretadas, isso sim. E anotem aí: eu já procurei um bocado!

Ô, Carlos, então, por que escolheu esse disco?, perguntarão os leitores. Céus, queiram me desculpar, mas é que esse é o “meu ofício” aqui na revista, certo? E justifico: paguei por esse CD - Friends for Schuur - mais de quarenta reais na esperança de ser “surpreendido”. Afinal, a turma que integra o disco é de primeira grandeza: Dave Grusin, Stan Getz, Ray Charles e Herbie Hancock, entre outros. Que pena! Apesar de todo o esforço, não conseguiram evitar o naufrágio do disco...

 

CDC: 4898-2 CONCORD