Discografia  básica  de  jazz

 

Pode-se dizer que os primeiros blues apresentavam um estilo rude e estridente, quase desagradável de se ouvir, porquanto se assemelhavam muito aos “gritos” do tempo da escravidão. Eram melodias construídas em compassos de doze notas, estabelecendo um padrão, e contavam as aventuras e os infortúnios dos que perambulavam pelo Sul dos Estados Unidos. Os homens foram os primeiros a cantar blues. Com guitarras penduradas nos ombros, primitivos cantores utilizavam a matéria-prima que vinha do reservatório das canções populares afro-americanas. As letras das canções eram tristes e pesarosas e, quase sempre, expressavam forte estoicismo. Mas, ao que se sabe, a origem do blues veio da música branca, por conta da influência dos cânticos religiosos... Quanto às mulheres, elas só começaram a realizar temporadas em teatros e espetáculos de rua no início da década de 1900. No entanto, curiosamente elas alteravam muitas letras e mudavam os temas para os “problemas do amor”. Sorte a nossa, pois essas almas femininas selaram de vez os destinos do blues e nos legaram verdadeiras pérolas. Ao aliviarem as suas dores com os fortes “gritos”, as mulheres renovavam as esperanças. Esperanças de que seu homem voltasse “vivo” após a dura jornada de trabalho. Esperanças de que o carinho pudesse vir com ele. E, sobretudo, esperanças de que o mundo estendesse a mão caridosa e abençoasse o imenso amor que continham por seus homens. Por isso, meus amigos, temos que agradecer a essas mulheres: seja por seu amor, seja por seu lindo canto!

 

 

Encontrei-me com o crítico de jazz, Sílvio Lummertz. E como eu sei que ele é um profundo conhecedor de vocalistas, fui logo dizendo: “Sílvio, estou impressionado com o talento do cantor e guitarrista, John Pizzarelli. O som que ele produz na guitarra é primoroso. A voz, no entanto... bem... acho que é apenas razoável. Muito embora haja carência de graves, consegue dar o recado. Em algumas passagens, ele até me faz lembrar o início da carreira de Chet Baker. Agora, convenhamos, o bom gosto na escolha do repertório, este sim, é o que há de melhor nele!”

Pizzarelli, muito à vontade, passeia nos maiores hits do cancioneiro americano, abusando da guitarra. A voz melosa, bem ao estilo dos crooners de boate, consegue captar a atmosfera intimista dos consagrados blues. Olha, verdade seja dita: a interpretação de If I had you tocou a minha alma. Coisa linda! Isto, sem falar da impecável performance em My baby just cares for me: belíssima!

Por certo, já ouvimos algumas criaturas afirmando que o jazz morreu. No fundo, acredito que seja puro engano. Pizzarelli está aí para desmentir essa gente. Ah, como é bom saber que o nosso jazz se renova. Sempre!

 

CD:  63.129-2 - BMG

 

 

 

Ney Deluiz, velho amigo, certa vez me disse que participou de um seminário sobre “criação”. Segundo ele, o curso foi longo e profundo, porém, infrutífero. Mas, por quê?, perguntei. “É o seguinte, Carlos: logo na primeira aula, surgiu na parede uma caricatura de um dos alunos. Nas aulas subsequentes, ocorreu algo semelhante. Então, no último dia do curso, o professor quis conhecer o autor dos desenhos. Foi quando eu me apresentei, assumindo a autoria. Surpreso, o “mestre” me parabenizou e indagou sobre a “razão” de tudo aquilo. Eu disse que era um protesto, pois achava que o “curso” não atingira seus objetivos. Nesse momento, virei todas as charges pelo avesso: lá, constava o meu nome em cada uma!” Moral da história, minha gente: ser “criativo” exige mais do que boas apostilas ou cursos. Tem que ter talento, mistério, isso sim! E é exatamente o que Etta James esbanja. Gravar as canções que Billie imortalizou, não é para qualquer cantora. Muitas já “tentaram”. Mas, poucas atingiram a categoria da nossa Etta. Mistery Lady, é o título do CD. Bem apropriado! “Lover man”, por exemplo, soa como o afago da mulher amada. Misterioso e deslumbrante!

 

CD: M 20.296 - BMG

 

 

 

Eu tenho um conhecido que é profundamente invejoso e maledicente. Ele não consegue enxergar o nosso mundo com generosidade. Coitado, vê defeito em tudo. E se não tem, ele logo arranja um. Se ouvisse esse CD,  Nightclub, com certeza diria: “Patricia Barber é uma mulher linda de morrer. Toca um belo piano. E, ainda por cima, tem uma voz privilegiada. Então, no mínimo, deve ter mau hálito, frieira nos pés ou é “sapatão”. Só pode!”

Que coisa terrível, né? Como tem gente mesquinha nesse mundo! Como é mais fácil “destruir” do que “construir”. Ah, meu Senhor, tenha piedade desses pobres de espírito. Por favor, dê a eles um pouco de luz e, assim, o mundo será melhor!

Verdade, meus amigos, é que Patricia está acima do bem e do mal. Sorte a nossa, pois somos brindados com esse impecável disco. Seguramente, ocupará um lugar de destaque na nossa “cedeteca”. E com louvor!

Autumm leaves quase me fez cair em prantos. Maravilha! E o nosso “Samba de verão” (Summer samba), que adquiriu uma bela e diferente interpretação na voz de Patricia?! Com certeza, os irmãos Valle (Marcos e Paulo Sérgio) devem estar sorrindo de orelha a orelha. Pudera, Patrícia reinventa a canção...

 

 CD: 27.290-2 BLUE NOTE

 

 

 

Acho que primeira vez que eu ouvi Bobby McFerrin foi em 1986, no tema de abertura do belíssimo filme “Por volta da meia-noite” (‘Round midnight). Coisa linda! O homem parece ter uma verdadeira orquestra na abençoada garganta. ‘Round midnight, adquire uma interpretação comovente, como poucas vezes soou. E olha que a galera toda do jazz já gravou essa imortal canção. Cada um deixou um registro especial. Mas, confesso: nenhuma atingiu a performance de Bobby. Impecável!

O álbum em questão é intilulado “The voice”. Preciso dizer mais o quê? Basta ouvir a faixa 3: El brujo. Céus, o homem é o bruxo em pessoa. Como dizem por aí: ele bate o “escanteio” e corre para cabecear para gol!

Outra pérola, presente no disco, é a conhecida I feel good. McFerrin arrebenta a fronteira do improviso e passeia pela melodia nos fazendo crer que há algum percussionista “escondido” no palco. É brincadeira o que ele faz, minha gente!

Embora a gravação do disco seja “ao vivo”, a qualidade é extraordinária. Consegue extrair todos os sons e ruídos produzidos por Bobby. Convenhamos: sons maravilhosos é que não faltam. Dá até para testar os equipamentos de um grande audiófilo!

 

CD: 60.366-2  ELEKTRA