Discografia  básica  de  jazz

 

Storyville era o bairro boêmio de Nova Orleans, fechado em 1918. Boa parte do cancioneiro norte-americano nasceu nas entranhas das ruas e becos daquele bairro. Era, também, o quartel-general das prostitutas. Por isso, os grandes músicos frequentaram àquela região em busca de bebida, emprego e, de quebra, algum “carinho”... O certo é que diversos músicos estabeleceram os seus “escritórios” ali. Só que com o fechamento e com a facilidade de se obter trabalho nos riverboats (barcas fluviais que atravessavam o rio Mississipi e seus afluentes), os músicos começaram a migrar para o Norte do país. Alguns foram para Memphis e St. Louis. Outros preferiram Kansas, Pittsburgh, Davenport e etc. Até alcançarem Chicago, que já era um grande centro e que, por conta dessa migração, se transformaria na nova capital do jazz. No entanto, apesar de toda a “malandragem” acumulada em Nova Orleans, os músicos se depararam com uma nova e complicada questão: a politicagem! É que nos dance halls e bas fonds as oportunidades eram mais voltadas para as grandes orquestras, complicando a vida de muitos artistas “solo”. Ainda assim, eles sempre davam um “jeitinho”...

 

 

Eu tenho que confessar uma fraqueza: não posso ouvir uma mulher com voz “rouca” que as minhas pernas logo, logo amolecem. Impressionante! E tem mais: pode ser mulher-moça ou balzaquiana... E aí? Vai ver que eu estou ficando feito aqueles “velhos babões” que não podem ver um “rabo-de-saia” e endoidam de vez... Será, minha gente?!

O que sei é que fico todo retorcido na poltrona quando escuto a voz de Cleo Laine. Ah, é uma delícia para os meus ouvidos sonhadores! Basta tocar a primeira faixa, que recebe o mesmo título do CD - That old feeling - e o mundo fica completamente azul. Coisa linda! Mas, para acabar de vez com minha dúvida, fiz um teste definitivo. Liguei para o meu amigo Marcelo, especialista em cantoras de jazz e perguntei: ô, Marcelo, qual foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção quando conheceu a sua esposa? E ele, de bate pronto, juramentou: sem sombra de dúvida, amigo, foi a voz da Luísa. Uma delícia!

Ufa, que bom ouvir isso. Eu já estava me considerando “tarado” ou coisa assim...

Bem, agora só falta você fazer o julgamento, amigo leitor. Mas, por favor, ouça primeiro o disco e somente depois me escreva para dar o veredicto!

  

CD:  MK 39.736  -  CBS

 

 

 

É... eu sei. Têm dias que as coisas desandam mesmo. A gente pode jogar uma moeda pro alto e dizer que, ao cair, vai dar cara ou coroa... e a infeliz cai em pé! Paciência, fazer o quê? O jeito é tocar em frente. Então, resolvi dar uma olhadinha nas boas lojas de discos, que é pra ver se encontrava alguma surpresa. Ups! Logo de cara, minha gente, bati os olhos neste disco Blues dreams, de um tal Bill Frisell (confesso que nunca ouvira falar dele!). A minha amiga Lenara, dona da loja e sabedora do meu gosto musical, veio com provocações: “Carlos, este CD aqui você vai querer comprar!” Caramba, eu já ando mais “pendurado” do que cabide velho e ela, ainda por cima, diz que custa uma bagatela: só R$27,00... Pode isso?

Bem... mas, como eu sou um camarada supersticioso, achei que se não comprasse, poderia me ocorrer algo ruim. Sabe como é? Acabei levando o disco. Ainda bem, minha gente, pois é uma maravilha: blues da mais alta qualidade!

Aí, eu estava pagando o disco e, ao meu lado, um sujeito dizia: “A CBF tem que contratar aquele senador para ser o técnico da seleção. Afinal, é o único que pode mudar o “painel” desse time!”  Céus, pode isso?!

  

CD: 755979615-2 NESUCH

 

 

 

Dizem que uma pessoa só se torna completamente feliz quando cai na estrada e toma o rumo do coração. Pode ser. Pelo menos, é o que dizem os velhos cantores de blues. E eles, minha gente, foram e ainda são os reis das estradas. Não somente da conhecida “Route 66” que corta aquele país. É que lá pelas bandas dos states tem estrada que não acaba mais. Quase todas bem arrumadinhas e conservadas. Quanta inveja nos dá, não é?!

John Lee Hooker é mais um desses craques da guitarra que perambula por esse mundão afora. Mas, não é qualquer um! Meu Deus, o homem canta e toca como se nem estivesse ligando pra vida, nem aí para mundo. Parece até que ele nasceu colado à guitarra, tal a intimidade alcançada. Ora cantando com um estilo suave e displicente, ora aguerrido feito índio de filme americano. Quando sobrevive, é claro! Walking the Blues é o título deste CD. A bem da verdade, vale mais pelas músicas, uma vez que a qualidade da gravação é sofrível. Uma pena, amigos, que muitas gravadoras façam compilações “nas coxas”, desrespeitando a extraordinária obra do músico. Paciência!

Ouçam Dreaming the blues e, certamente, vocês se sentirão no velho Mississipi. Com direito a uma dose de “Jack Daniels”.

  

CD:  RTS 33.016

 

 

 

Ah, Senhor meu Deus, como pôde fazer isso conosco: levar o querido "Joe" daqui? Olha, não me queira mal... mas, às vezes, fica difícil entender o seu senso de justiça. Não que esteja duvidando dele, Senhor. É que nesses últimos tempos tivemos a perda de algumas criaturas especiais. É bem o caso do Joe Henderson, Senhor. Embora ele tivesse 64 anos, tinha ainda muito a nos oferecer, pois era capaz consolar os nossos espíritos inquietos com um sopro impecável, quase divino... Posso até compreender que os seus anjinhos estejam cansados de tocar trombetas e que, por isso, o Senhor queira renovar a “orquestra”. Porém, insisto: o Senhor já conta com extraordinárias companhias, pois aí estão Chet Baker, Louis Armstrong, John Coltrane e tantos outros músicos endiabrados... perdão, Senhor, iluminados. Certamente, eles estão fazendo a alegria de todos daí, além da sua, é claro!

Como prova da minha boa fé, ofereço este maravilhoso disco, Doublé Rainbow, em que o estimado Joe Henderson pede auxílio ao nosso Tom Jobim (por certo, o novo maestro aí do Céu). O resultado não poderia ser diferente: produziram uma obra belíssima!

Para finalizar, rogo, então: abençoe este novo filho. E, se não for pedir muito, faça com que a sua alma pouse novamente aqui na Terra. Sua benção, meu Senhor!

 

CD: 527.222-2  VERVE