Discografia  básica  de  jazz

 

Recentemente assistimos nos cinemas ao filme intitulado AMISTAD. O tema tratado era o racismo. Como pano de fundo, o filme alardeava a “democracia” americana. Víamos um navio veleiro chegando aos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. Traziam negros africanos que seriam vendidos como escravos. Todavia, o exemplo citado acima não era novo. Muito antes disso, em 1619, aportou em Jamestown, Virgínia, o primeiro navio carregado de escravos negros. Era a mão de obra barata na qual se desenvolveria toda a economia dos estados do sul. Embora o governo norte-americano tivesse proibido, em 1808, o tráfico de escravos, o que se viu foi o contrário disso. Os escravos eram tratados de forma desumana: acorrentados e levados aos campos de lavoura para uma dura jornada de trabalhos forçados. Ironicamente, a mais bela e vigorosa música do cancioneiro norte-americano surge nesse exato momento. Foram as “canções de trabalho”. Nascidas na aspereza da vida. Nascidas na perda da liberdade. O tema central sempre foi o lamento. Foi a forma encontrada pelos negros de sublimarem a dor. Cantavam os seus “prantos”, cantavam a sua desesperança... simplesmente, cantavam. Assim é o jazz!

 

 

Certamente Chet Baker deve ocupar o andar mais alto no reino dos céus. Caso contrário, convenhamos, seria uma tremenda injustiça, o que não é do feitio do Senhor. Lá, isso não!

Quem, como Chet, viveu uma vida atropelada pela incessante busca e, mesmo encontrando dor, produziu as mais belas passagens que o cool jazz conheceu, merece o grande “perdão”. Bem mais do que isso: mereceria ser abençoado e permanecer no “andar debaixo” por um longo tempo...

Neste disco, em parceria com Paul Bley - um baita mestre no piano -, Chet nos brinda com todo seu lirismo musical. Confortando os nossos inquietos espíritos, como somente os anjos conseguem fazer.

If I should loose you  e You go to my head nos dão a dimensão desse encontro memorável. É algo para ficar na história. Seguem-se outras preciosas canções e nem preciso dizer mais nada. Basta ouvir!

Ah, meu Senhor, trate bem esse seu sofrido filho Chet. Aqui na Terra, é verdade, ele pode ter feito lá algumas bobagens. Mas, por certo, elevou o espírito de todos nós. Como poucos. Deliciou-nos com um sopro tão puro que só pode ser comparado aos dos seus fiéis anjinhos. Aleluia, irmãos!

 

CD:  1073 - IMAGEM

 

 

O que se pode dizer de novo a respeito de Billie Holiday? Céus, creio que tudo já foi dito. Ou quase. De certo, ela é a grande dama do blues e a voz mais “lamentosa” que ouvi. Olha, confesso a vocês: que a minha namorada não saiba, mas ninguém sussurrará no meu ouvido como Billie! Se você, amigo leitor, ainda não teve a felicidade de ouvir Billie Holiday cantar Sophisticated Lady, então, a sua vida está incompleta. Nada teve sentido e os seus olhos ainda não brilharam. Portanto, corra atrás!

O título deste CD não poderia ser melhor: Songs of lost love. Não me culpe, então, pela “dor de cotovelo” que se apossará de você ao ouvir o disco. É da vida, mano... Fazer o quê?!

Sendo assim, faça como ela e suplique: Lover, come back to me. Talvez você tenha mais sorte. Quem sabe o seu sonho possa, enfim, acontecer?!

Para completar a seleção de craques do time, temos Oscar Peterson, Benny Carter, Ray Brown, Barney Kessel e Ben Webster. São as feras que acompanham a nossa Billie no disco. Impecáveis. Todos eles!

A remasterização feita nas gravações de 1952 a 1957 ficou magnífica. Por tudo isso, tornou-se um disco antológico. Love me or leave me, entoava Billie Holiday. Que beleza!

 

CD: 314.517.172-2 - VERVE

 

 

A voz é um tanto rouca, quase displicente. E sem muito alarde, ela lentamente penetra na nossa alma, envolvendo-nos com uma intimidade permitida apenas àquelas pessoas especiais.  Assim pode ser descrita a fabulosa Abbey Lincoln.

Aqui, ela aparece acompanhada por Stan Getz, outro grande mestre do jazz. Está, também, ao lado do velho e bom Hank Jones no piano, do talentoso Charlie Haden no contrabaixo, Mark Johnson na bateria e de Maxine Roach na viola. Ou seja, só nego bamba!

Bird Alone é abertura para ninguém botar defeito. A letra e a melodia são da própria Abbey. Por sinal, eu considero impecável a cumplicidade alcançada com Stan Getz. Que sinergia!

Já em When I´m called home ocorre algo interessante. Vejam vocês: até o momento do solo de Getz, nós sentimos uma Abbey contida. Mas, logo a seguir, explode toda a sua emoção. Coisa linda!

Summer wishes, winter dreams  tem a atmosfera triste das canções de Billie, de quem Abbey é fã incondicional. Inclusive, ela já gravou dois discos só com as canções de Billie. Vale a pena conferir.

Para fechar de forma triunfal, Abbey escolheu A time for love, onde consegue derramar toda a emoção. Só ouvindo!

 

CD: 314.511.110-2 - VERVE

 

 

 

Quantos encontros já existiram na história do jazz? Centenas... milhares? Sei lá! Seria esse apenas mais um? Ah, duvido, minha gente! Esse aconteceu em sete de março de 1963. E para a nossa sorte, lá estavam John Coltrane (sax tenor), Johnny Hartman (vocal), McCoy Tiner (piano), Elvin Jones (bateria) e Jimmy Garrison (contra-baixo).

No fundo, o que eles conseguiram fazer não está no mapa. Acredito até que o intitulado disco bem que poderia se chamar Dedicated to you. Assim, ao menos, ele daria sentido à nossa carente solidão. E o meu amigo gaúcho, jazzista de carteirinha, poderia dizer: “Barbaridade, chê, que capacidade!”.

My one and only love é cantada bem ao estilo “crooner de boate”. (Aliás, eu fiquei apaixonado com a regravação desta melodia – trilha sonora de Despedida em Las Vegas - feita pelo Sting. Que magnífica performance ele alcançou!)

Outro hit que ninguém jamais esquece é You are too beautiful. Meu Deus do Céu, tem a cara daqueles bailes de Ed Lincoln, lá pelos anos 60. Hum... eu ali dançando de rosto colado com a moça e falando um “monte de coisas” no seu ouvido. Apesar de toda ajuda, nem sempre deu certo. Bem... Ao menos, fiquei com a canção no coração!

 

CD: MCAD- 5661 JVC - 466 MCA/IMPULSE