O  mundo  é
um  moinho

( Carta  a  Zamira )

 

 

              É quase certo que você, Zamira (personagem de Labina Mitevska), nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena, amiga, porquanto você perdeu a oportunidade de se emocionar com essa belíssima canção: Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó...

            Pois é. Sem dúvida alguma, foi uma lástima você não ter ouvido esses versos. Saiba, então, Zamira: Cartola compôs essa música para demover o desejo da filha de sair de casa precocemente. E ele conseguiu! Se você tivesse sido acalentada por essa melodia, quem sabe pudesse compreender e perdoar o duro destino que a vida estava a lhe reservar? No entanto, a dor que Cartola sentiu não pode ser comparada à sua. Lá, isso não. Ainda que toda dor seja triste, pois dor é sempre dor, o certo é que o seu infortúnio bateu mais fundo. Como prova, basta assistir ao melancólico filme e perceberemos que esta dor sempre esteve presente em sua vida. Impiedosamente, é verdade. Presente, também, no destino das tantas vítimas de guerras, como a do seu sofrido país. Convenhamos, tudo isso serve apenas para denunciar o lado mais obscuro da natureza humana: o sofrimento. Não há nada mais sombrio do que isso, esteja certa!

            O que posso dizer, minha menina, é que até mesmo os poetas se sentem impotentes diante da intolerância e da capacidade de destruição que há no homem. Até parece uma “vocação” inata, não é verdade? Você talvez pudesse indagar com rancor: o que caberia a nós – pobres mortais – fazer diante de tudo isso? O que é preciso?

            Olha, Zamira, eis aí uma questão antiga. E a despeito de tudo, ela “ainda” nos aflige de forma insidiosa. Meu Deus, até quando?!

            Se pensarmos bem, perceberemos que o homem, desde que começou a habitar este controvertido planeta, desenvolveu uma destreza crescente. Algumas vezes, sabemos bem, tal capacidade serviu para a sua própria sobrevivência. Contudo, temos que reconhecer que na maioria das vezes o que falou mais alto foi o lado destrutivo e predador de nossa raça. Que infortúnio!

            É sabido, também, que o “homem” é portador de fortes instintos. Ao longo da sua passagem pela história da civilização, o homem empreendeu práticas que têm variado de acordo com as necessidades atreladas. Até aí, tudo bem. Afinal, foram muitos os momentos vividos por ele. Momentos de glórias e conquistas. Por outro lado, nós tivemos momentos vergonhosos, Zamira. De pura insanidade. E não há como esconder, lamentavelmente...

            Nos primórdios da era humana, por conta da seleção natural, nós fomos impelidos a desenvolver diversas “autodefesas”. Algumas delas, por certo, foram imprescindíveis à manutenção do homo sapiens. Porquanto as condições eram difíceis e, sendo assim, somente os “mais fortes” conseguiriam lidar com as adversidades.

            Centenas de anos se passaram para que o homem criasse o fogo e pudesse se aquecer. Dessa forma, mantinha-se a salvo das intempéries do clima e das possíveis ameaças. Logo a seguir, ele experimentou as suas primeiras habilidades manuais, confeccionando os instrumentos de caça. Foram bens extraordinários, sem dúvida, que favoreceram a alimentação e o vestuário. Propiciavam, também, maiores oportunidades na formação das tribos, uma vez que a caça coletiva ensejava maior êxito. E com esse espírito gregário assumido, o homem pôde se locomover e ocupar diferentes regiões do planeta. Assim, surgiram os “amigos”. O diabo é que na esteira da disputa pela caça vieram, igualmente, os “inimigos”! É que no bojo das lutas por alimento (e mulheres) surgiu a “famigerada” ganância. Como consequência, criou-se o gosto pela “dominação” e diversos conflitos foram estabelecidos. Tribos “irmãs” tentando dominar os vizinhos. A partir daí, nunca mais cessaram os litígios... Nunca mais!

            De fato, nós estamos até hoje no mesmo ponto, apesar dos progressos alcançados em outras áreas. Desafortunadamente, nós empreendemos uma permanente luta para dominar o outro. Lutamos para subjugar o “suposto oponente”. Estupidamente, lutamos... Contra quem? Qualquer um! Contra o quê? Não importa! Em prol de quê? Não sabemos! Por quanto tempo? Só Deus sabe...

            Ah, Zamira, você não sabe como dói acompanhar à sua história mostrada em um filme, mesmo que ela seja contada de modo belo e impecável. É que, irônica e cruelmente, a sua história denuncia as nossas doenças, revelando as atávicas dificuldades dos homens. Dificuldades essas que nenhuma diferença étnica pode justificar. Ou que religião alguma consegue atinar, porquanto está no nosso “interior”.

            É, minha pobre criança, ao que tudo indica, nós introjetamos de tal maneira àquela antiga destreza, herdada dos nossos ancestrais, que não mais conseguimos nos livrar dela. Céus, quanta ironia!

            Apesar disso, devo confessar, eu sou um otimista “incorrigível”. Sim, é verdade, uma vez que eu continuo acreditando no “homem”. Acredito porque percebo que a sua história consegue, como tantas outras, comover muitas criaturas. Então, é sinal de que há esperança. É sinal de que não morreu, de todo, o lado humano de nossa raça. Talvez, ainda tenhamos que pagar com muitas “vidas”, como em seu país, para “descobrirmos” a nossa real natureza e vocação. Sim, companheira! Decerto há um outro lado em nossa alma que não é apenas destruidor, e nós já demos provas disso. Deve haver, seguramente, mais solidariedade em nossos corações do que supõe a insensibilidade de muitos. Talvez ela esteja escondida em algum lugar pouco explorado por nós. Quem sabe, estejamos bem próximo de revelar o nosso lado generoso?! O que sei dizer é que é preciso acreditar nisso. Do contrário, tudo aqui perderia o sentido, a importância e a razão da nossa existência...

            Por tudo isso, eu quero deixar aqui um beijo bem carinhoso para você, Zamira. E se possível for, pedir-lhe que “perdoe” a nossa recorrente loucura!

            Bem, meus prezados leitores, desculpem-me tê-los afastado da conversa que tive com a menina Zamira. Emocionado, devo declarar: essa conversa era urgente e necessária, além de muito pessoal. No fundo, há tempos eu me devia esta conversa. Agora, torço apenas para que tenham sido tolerantes comigo e entendido o momento especial.

            Voltando ao nosso encontro mensal, o filme em questão é “Antes da chuva”, dirigido por Milcho Manchevski e muito ajudado pelos talentosos Rade Serbedzija, Labina Mitevska, Katrin Cartlidge e Grégoire Colin.

            Belíssimo. Comovente. Humano. Corajoso. Sei lá mais o quê!

            São três histórias de amor que se cruzam, em meio à guerra fratricida na Macedônia. Palavras é o título do primeiro episódio, que descreve a dor de Zamira e do jovem monge Kiril (personagem de Grégoire Colin). Em Rostos, o segundo episódio, surge o “fotógrafo de guerra”, Aleksandar (personagem de Rade Serbedzija). Envolvido numa difícil relação amorosa em Londres, ele não consegue permanecer distante e sofre com os duros acontecimentos desenrolados em seu país. Imagens é o terceiro episódio, que tem o pano de fundo no retorno de Aleksandar à sua terra natal, a Macedônia. Ironicamente, neste último episódio, os caminhos de Aleksandar se cruzam com os de Zamira e Kiril, desenhando de forma impiedosa a intolerância presente nos conflitos entre macedônios ortodoxos e muçulmanos albaneses. O retrato da dignidade daquela gente é, enfim, aviltado e revelado...

            Sim, meus amigos, “Antes da chuva” é um filme impiedoso. Desafiador. E ao mesmo tempo, delicado. Um filme produzido com a nítida intenção de “impressionar”. E ele consegue!

            Ainda bem que podemos fazer pequenas “expiações” enquanto o mundo não se ajuíza. Sorte a nossa que tivemos o querido Cartola para nos consolar e ainda temos, afortunadamente, o poeta Nei Duclós para nos dizer sem medo: Estamos na mesma fogueira / na mesma lenha / usando a mesma coleira / pulando com a mesma raiva / sofrendo a mesma seca / plantando a mesma semente / esperando com a mesma demência / que ela cresça...