A trajetória

de Canelau

 


 

 

                  Eu não sei se vocês concordarão com as razões dele. No entanto, isso não tem lá muita importância. Afinal, nem sempre somos guiados na vida pelo bom senso ou pela lógica. Ou por aquilo que esperam de nós. Fosse assim, meus amigos, o mundo seria sempre igual e previsível, não acham? Um mundo sem grandes surpresas. Monótono, até!

            Contudo, o que eu gostaria de contar aqui é sobre a trajetória do meu amigo Canelau. Inegavelmente, a história dele é repleta de percalços. Melhor dizendo, surpreendente! A começar pelo nascimento: em Irapuato, uma pequena e miserável vila no interior do México. O ano? Bem, creio que era 1950 ou 51, não estou bem certo. Mas isso não faz diferença. O que sei dizer é que ao lado dele tinham outros seis irmãos. Tão famintos como ele. Famintos, por certo, mas não somente de comida, biscoito ou coisa assim. É que há outras modalidades de “alimentos”, minha gente. Muitas vezes, é verdade, são mais preciosos que o feijão nosso de cada dia.

             Sim, eu ia dizendo: os outros seis irmãos bem que exigiam atenções dos pais. Não sei dizer se eram semelhantes às que ele tanto cobiçava. Isso, porém, é algo complicado em uma família repleta de filhos. Por via de regra, os pais não conseguem atender as necessidades de cada um. Ainda que seja lastimável, os pais de Canelau não constituíram nenhuma exceção. Viviam assoberbados. O jeito, então, era deixar por conta do “destino” e torcer para que a sorte bafejasse o rumo de cada um...

O irmão mais velho, por exemplo, tornou-se assaltante. Roubava bancos e, principalmente, escolas, sua preferência. Intitulava-se “especialista”. Por ironia, morreu aos 22 anos de idade, vítima de uma “distração” no serviço: parou para ler o mural de recados e um tiro certeiro selou a sua sorte. Uma triste sina... mas, fazer o quê?

A segunda irmã, conforme o povo dizia, “nasceu” para o espiritismo. Montou um frequentado “centro” e, pelo visto, conversava com “eles”... todos “eles”! O certo é que ela era feliz dessa forma, pois vivia em profunda harmonia. Serena, por natureza, Manita contaminava a todos com seu jeitinho carinhoso. Acredito que ela era, até então, a única bem-sucedida daquela numerosa família.

Tinha outra irmã que era “caixa de banco”. Chamava-se Yucatán. O nome fora imposto goela a baixo pelo pai, professor de geografia daquele pobre município. Ela era uma bela morena, isso sim, de olhos castanhos e sorriso sempre contido. Yucatán era a imagem da filha próspera, porquanto tinha a mania de juntar dinheiro, ainda que fosse pouco. Passou a vida inteira a sonhar com o casamento que, perversamente, nunca veio. Tanto que aos 40 anos, desesperada, queimou toda a economia que fizera para o enxoval e passou a vestir um permanente luto. Era mais uma “cruz” naquela família.

O quarto daquela longa prole era Canelau, cuja alcunha recebera por conta do seu porte “franzino”. De fato, aquele garoto parecia um bocado fraco e inspirava fortes preocupações. Talvez por isso, todos daquele município apostavam que ele não “vingaria”!

Havia, também, um que era evangélico, voltado inteiramente para os livros religiosos da Igreja Universal. Não aceitava a convivência com os outros, aos quais considerava “impuros”. Declarava-se o verdadeiro Cristo, capaz de salvar a todos. Segundo ele, veio ao mundo apenas para purgar os muitos pecados da família. Apesar disso, jamais se acertou na vida. E até hoje ele peregrina com a bíblia debaixo do braço anunciando, com veemência, a salvação do Senhor.

Ainda existiam outros dois irmãos, um menino e uma menina, mas, desses, nem tenho muito que falar. Eram apenas mais duas pobres crianças nesse mundão de Deus.

Agora, uma coisa eu asseguro: de todos os filhos, o que mais me chamou a atenção foi Canelau. Eta, moleque diferente! É bem verdade que ao conhecer a história dele passei a ter outro conceito sobre força e fraqueza. Algo sutil. Algo que os pais não costumam transmitir e tampouco se aprende nas escolas. Somente a vida nos ensina.

O que posso afirmar, com convicção, é que aquele mirrado garoto me botou numa “sinuca de bico”, pois me vi, pela primeira vez na vida, tentado a acreditar em “espíritos e entidades”. Eu explico.

É que Canelau vivia me falando das “conversas” que tinha com o falecido irmão, Luciano. No início, confesso que nem dei bola para essa história. Achava que era apenas mais uma fantasia de criança, essa coisa de brincar com fantasmas ou amiguinhos fictícios. Mas, de alguma maneira, tudo aquilo mexia comigo. Não sabia como nem por quê!

O tempo foi passando e ele, Canelau, ficava cada dia mais esperto, extrovertido. Estampava uma alegria que, muitas vezes, eu desejava saber o motivo, uma vez que a vida não era nada generosa com ele. O interessante é que ele aprendia muito rápido as “malandragens” dos jogos, das tarefas da escola e dos relacionamentos com os amigos. Na hora do aperto, aquele menino conseguia manter a calma e descolava a necessária resposta. Sempre. Só vendo!

Até que um dia, inesperadamente, Canelau se rebelou e fugiu de casa, com apenas quinze anos. Muitos anos se passaram até que eu o reencontrasse, já com quarenta anos de idade. Acompanhado por um belo cachorro, contou-me que havia se engajado em diversos movimentos e que viajara bastante, fazendo alguns “cursos”. Quais? - eu perguntei. Ele, porém, não respondeu. Creio que nem era preciso.

Saímos daquela praça e caminhamos um bocado. Conversamos longamente sobre muitos assuntos. E eu percebi que a expressão dele era bem diferente daquele menino franzino que conheci e, quem sabe, estivesse sepultado para sempre. Somente ali, meus amigos, eu me dei conta de que tinha ao lado um “livre pensador”. Percebi, também, que as heranças de cada um nem sempre determinam o destino da pessoa. Por tudo isso, devo confessar: eu celebrei o encontro com aquele “homem”. Afinal, na minha frente havia mais uma criatura que se “libertara”. Um indivíduo especial, sem dúvida, e que possuía um olhar voltado para além dos triviais assuntos ou motivos.

Canelau me disse ainda que fora visitar a família para “quitar” antigas pendências. E com sorte, conseguiria se “desobrigar” do sofrido passado. Segundo ele, sem culpas, mágoas ou remorsos.

Tempos depois, não é que eu descubro que ele virara um cineasta consagrado e que os cursos que nunca quis declarar quais eram, foram todos ligados à sétima arte. Ah, só vendo a cara de espanto que fiz quando vi o seu nome no letreiro do cinema do bairro: Amores brutos, de Alejandro Gonzalez Inarritu, o meu querido Canelau...

Sem dúvida alguma, a história do filme é “impactante”. Impiedosa, até. Visto que as linguagens cênicas, aliadas ao forte texto, são brutalmente extraídas do “submundo” do inconsciente coletivo. Ou, sabe-se lá, tenha emergido do recorrente “desconsolo” presente na memória de Canelau. Quem pode garantir?! E será que isso importa?

Para Alejandro, talvez, sim. Porquanto pôde “expiar” o passado, utilizando as ferramentas acumuladas ao longo da vida. Em vista disso, ele agora não se sente mais perseguido pelos antigos fantasmas. Canelau, meus amigos, adquiriu o direito de remir o “maldito estrangeiro” que carregava  no peito, como bem descreveu Albert Camus. De agora em diante, Canelau é um cidadão do mundo!

Aliás, faço aqui um reparo: não foi do romance - O estrangeiro, de Camus - que me lembrei quando assisti ao filme. Na verdade, o filme me remeteu a outro livro do escritor argelino: A queda. Este, sim, é o retrato mais duro do “universo do absurdo”, de Camus. Em cada cena do filme, parecia até que eu relia aquela consagrada novela: “O meu acordo com a vida era total: eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões”.

É, minha gente... Se por um lado o filme nos deixa acuados pela forte temática, por outro, ele redime alguns “desejos íntimos ou pecados”. Mas, quem há de confessar qualquer “desvio”? Quem admite destampar o porão da memória?

Alejandro conseguiu isso à medida que trouxe de volta as “conversas” com o falecido irmão, Luciano. Acredito até que tenham sido diálogos difíceis. Mas, pelo visto, ele soube tirar proveito. A prova disso está no impecável trabalho produzido. Com talento e arte, ele soube expressar as tantas perdas ocorridas em sua vida. Tanto é verdade que ao final do filme ele dedica a história ao irmão ausente. Investido de coragem e respeito, reconhece: “A Luciano, porque também somos o que perdemos...”