Uma velha canção

 


 

Cena 1 – Atordoado, eu estiquei o braço e procurei alcançar o despertador. Como o quarto ainda estava escuro, fiquei sem saber se era dia ou noite. Aliás, eu gostaria de declarar: nunca gostei desse nome - “despertador”. Conforme a própria palavra sugere, aquilo que “desperta dor” não pode ser uma coisa boa. E dor, convenhamos, é a pior emoção que uma criatura experimenta na vida.

            Ao olhar para TV, estampando uma indiferente tela azul, lembrei-me do filme a que assistira na noite anterior: Amnésia, de Cristopher Nolan. Sua história ajuda a entender a minha, dizia o protagonista, Leonard. Foi quando pensei: “E eu, será que algum dia conseguirei entender a minha história?”

            Avidamente, abri a gaveta da mesa de cabeceira e procurei pelo último bilhete dela, escrito no Dia dos Namorados: “Carlos, dormi feito um anjo. Acordei alegre e com saudades. Te amo!”

 

Cena 2 - Espalhados em cima da cama, estavam todos os bilhetes que trocamos durante o relacionamento amoroso. Com isso, iniciei uma ordenação. Primeiro, por grau de importância. Depois, cronologicamente. E logo a seguir, ordenei os bilhetes segundo as cores dos papéis. Deve ser duro viver em função de pedaços de papel - respondeu Natalie, em dado momento do filme. Ao lembrar a cena, consenti: “É... o que sobra de uma relação afetiva, muitas vezes, são só papéis... Tristes fragmentos que acabam perdendo o significado com o correr do tempo. E não há nada que se possa fazer contra isso!”

 

Cena 3 - É bem verdade que eu sou um sujeito pouco paciente. Algumas vezes, reconheço, sou até intolerante. Ah, se eu tivesse sido mais compreensivo com o momento que ela atravessava, quem sabe não pudesse perdoar certas desatenções cometidas? No fundo, parece que a vida fica sempre nos testando, que é para ver se estamos capacitados. Como se “viver” fosse um eterno teste de resistência emocional que certifica os nossos limites. Tem coisas que é melhor você esquecer!, veio estampado na capa do filme. “E agora, o que fazer?”

 

Cena 4 - Percebo que o sono começa a tomar conta de mim. Sendo assim, procuro me deitar no confortável sofá da sala, fechar os olhos e me “ausentar”. Profundamente. O mundo não desaparece quando você fecha os olhos, dizia Leonard. “Mas o meu mundo não precisa ser igual ao dele”, suspirei aliviado.

            O certo, meus amigos, é que aqueles dias de profunda tensão e medo me deixaram em frangalhos, isso sim. Agora, eu bem necessito de descanso. Mais ainda: acredito que mereça! Afinal, eu lutei por esta relação desde o início. Até mesmo quando ela fraquejava e preferia, simplesmente, “chutar o balde”. No entanto, até então, eu era paciente e sabia que o tempo se encarregaria de repor as verdades...

 

Cena 5 - Há quem garanta que os sonhos representam o melhor tratamento para o nosso espírito. Pode ser. O que sei dizer é que eu sonho com ela todos os dias. Irremediavelmente. E nos meus sonhos, ah, que delícia, ela consegue finalmente se dar conta dos equívocos. Consegue entender as razões do coração e as acolhe. Diz até que não há culpados nos nossos erros, apenas dificuldades presentes. De ambos. E nesses recorrentes sonhos, eu continuo a beijá-la com intensa paixão. Porém, de alguma forma... eu sempre acabo acordando. Nem sei há quanto tempo ela se foi. É como se eu acordasse e ela não estivesse na cama, pois foi ao banheiro ou algo assim. Mas, de alguma forma, sei que ela nunca mais vai voltar pra cama. Se eu pudesse esticar o braço e tocar o seu lado da cama, saberia que está frio. Mas, não posso!, desabafou Leonard.

 

Cena 6 - Havia uma semana que não conversávamos. Nem sequer nos víamos. E o tempo, como se sabe, é uma “faca de dois gumes”: se por um lado ele é um excelente “conselheiro”, por outro, cria perigosas fissuras. Porquanto somos criaturas movidas pela paixão, isso sim! E esta, por certo, precisa ser regada todos os dias com o mesmo carinho que uma planta exige. Feche os olhos e se lembre dela. Sabe o que temos em comum? Nós dois somos sobreviventes!, afirmava Natalie a Leonard.

 

Cena 7 - Abri os olhos e fiquei olhando para o teto. Longamente. Como que esperasse algumas respostas. E como elas não vieram, lembrei-me do comovido desabafo do romance “Luísa”, de Maria Adelaide Amaral, em que Luísa declara a Sérgio: “... eu devia me expor a você, sem reticências, sem jogos... mas, ao mesmo tempo, eu tinha medo de me dissolver, de me perder, de não ser mais eu, mas apenas um ser apaixonado... E tinha, principalmente, vergonha da minha ansiedade, da minha carência... se eu as exibisse, talvez você se assustasse e fugisse. Então, eu ocultava os meus excessos, me mostrava distante, forte, blasé... e o que acabava mostrando a você era apenas um arremedo de envolvimento, mesmo sabendo que isso nos fazia muito mal... Era como se você fosse Deus e tivesse o poder de decidir a minha felicidade ou a minha desgraça... Durante meses, ocultei a minha loucura, me contive, sufoquei, fui civilizada. Civilizada na minha fúria, civilizada na minha dor, civilizada em momentos que nunca deveria ter sido...”

 

Cena 8 - Ufa! Até que enfim conseguimos nos falar. Talvez tenham sido as palavras mais difíceis de serem pronunciadas, uma vez que elas estavam carregadas de medo. Medo de ferir, ao usar palavras inoportunas. Medo de não se mostrar orgulhoso e nem dependente. Medo de perder o que não mais possuía... Medo e angústia. Sempre eles!

               “Por que somente eu devo salvaguardar essa relação? Por que aceitar o “castigo” de um pecado que nunca foi denunciado?”, eram os pensamentos que rondavam a minha cabeça após aquele encontro. Ficar zangado, sem saber o porquê. Sentir-se culpado, sem imaginar o porquê, refletia Leonard, como se não pudesse recuperar a identidade extraviada.

 

Cena 9 - Eu tinha um colega, professor, que desenvolvia testes e provas para os alunos baseados em rígidos princípios: ou o estudante acertava a questão de ponta a ponta ou recebia grau “zero” na pergunta. Até que um dia eu lhe perguntei: “Ô, Paulo, o que você pretende: aproveitar o que o aluno sabe ou o puni-lo pelo que não sabe? Isto porque, companheiro, não há diferença alguma entre um menino que entregou a prova em branco e o que respondeu a todos os quesitos cometendo pequeníssimas falhas. Pelo seu critério, ambos receberão a mesma avaliação!” Até hoje, eu não obtive qualquer resposta dele...

               Ninguém é perfeito!, dizia Leonard.

 

Cena 10 - Saí do quarto e fui tomar um demorado banho, que era para ver se limpava também a minha alma. “Quem sabe eu não esteja precisando levantar a autoestima? Fazer essa barba de cinco dias. Pôr uma roupa bem bonita. Olhar as pessoas e descobrir que o mundo não se encerra apenas no afeto que tenho por ela, por maior que seja...”

               Preciso acreditar num mundo fora da minha mente. E que minhas ações ainda têm significado, mesmo que eu não me lembre delas. Preciso acreditar que, ao fechar os olhos, o mundo continua aqui!, sentenciou Leonard.

 

Última cena - Ao entrar no pequeno Café-Bar, deparei-me com o grupo de jazz, formado por amigos. Festejaram a minha chegada. Timidamente, percebi que outras pessoas me olharam com interesse e curiosidade. É que, no fundo, transcorrido tanto tempo, enfim eu me sentia “bonito”. Por dentro e por fora. Sentia-me atraente. Que coisa boa é isso!

               Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são. Não sou diferente!, finalmente, admitiu Leonard.

Créditos finais - No momento, reconheço, eu não consigo me interessar por outra mulher, porquanto o meu coração ainda está voltado para ela. Mas... foi muito bom ter recebido os sinais de “saúde”. De toda a forma, preferi voltar para casa mais cedo.

               Abri o livro na página marcada e lá estava: “Eu vou ficar muito triste, mas vou matar você dentro de mim... e vou me vestir de luto e sofrer uma grande, uma enorme melancolia por essa perda... mas um dia, ao acordar, eu vou perceber que você não ocupa mais os espaços da minha memória afetiva de maneira tão insistente e que a sua presença finalmente se dissipou... E vou ser livre outra vez...”

               Inconformado, joguei o livro em cima da mesa e acendi um cigarro. Junto com a fumaça, é verdade, eu também procurava exalar um pouco da angústia que me oprimia. Naquele momento, mais do que nunca, eu desejei estar acompanhado. Talvez por isso, tenha ligado o rádio na esperança do acalento. No entanto, para o meu desespero, a música que tocava era uma velha e conhecida canção: “Volta! / Vem viver outra vez ao meu lado. / Não consigo dormir sossegado, / Pois meu corpo está acostumado...”