Verdades
&
mentiras

 

 

              Intuir, eu até consigo. No entanto, não tenho muita clareza do tamanho do “buraco”. Sei apenas que ele existe. Feito aquela história: yo no creo en las brujas, pero que las hay... las hay! De toda a forma, o importante é a gente ficar atento aos movimentos que efetuamos, porquanto eles sinalizam os caminhos e os descaminhos que trilhamos. O resto, convenhamos, ficará por conta da nossa acuidade e zelo. Sempre.

            O que eu posso dizer, sem medo de me expor, é que durante um bom tempo eu fiquei alheio a diversos episódios da vida. Indesculpavelmente, reconheço... Talvez, por conta de uma formação que foi materialista em demasia ou, quem sabe, por equivocadas heranças que inadvertidamente acolhi?! O certo é que quando me dei conta, tendo em vista a contabilidade emocional, o “caixa” já estava no “vermelho”. E refinanciar estas “dívidas”, meus amigos, é algo bastante complicado. Por vezes, jamais se consegue. Isto porque o processo se arrasta por longo e sofrido tempo. Em geral, provocando sequelas. Como a sombra e a escuridão a ser usada na metáfora deste artigo. Então, vejamos o que vai dar.

            De fato, quando se é menino tem-se a crença de que a “tempestade” nunca virá ou, quando muito, só acontecerá do outro lado da montanha, onde o nosso olhar não alcança. Aí, o tempo vai passando. Lentamente, ele incorpora os sinais de sua presença: surgem as dúvidas, angústias, conflitos. E o medo, enfim, começa a criar raízes. Comigo não foi diferente. Como tantas outras criaturas, eu também tive sonhos que não sei se existiram. Acreditei em histórias que talvez não aconteceram. É o tal negócio: o legado de cada um tem lá muitas verdades e, infelizmente, algumas mentiras. São histórias que vão sendo construídas e emaranhadas nas esquinas do mundo. O nosso querido Djavan foi um que percebeu isso. E ele expressou numa belíssima canção a terrível dúvida que está embutida em alguns de nós: Só eu sei das esquinas que passei... Só eu sei! / Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar? / Sabe lá, o que é morrer de sede em frente ao mar?!

            No curso da vida, pode-se observar que muitas pessoas optam pelo silêncio. Outras tantas, preferem acolher o cinismo. Mas a grande maioria, por certo, fica por conta da ignorância. Lamentavelmente. São criaturas que jamais vasculharão a “caixa-preta” em busca das verdades... Agora, devo confessar: eu não sei o que é melhor. Tampouco estou aqui a fazer julgamento de valor. No fundo, são questões muito individuais e que só a criatura envolvida pode responder, isso sim! Se eu trago estas reflexões à baila, creiam-me, é tão somente porque elas estão a vazar do copo e encontro em cada um de vocês a solidariedade tácita. Afinal, todos nós somos vítimas de diferentes “verdades e mentiras”, não acham?!

            No que me diz respeito, eu percebo que “Inês é morta” e já não consigo mais varrer o lixo para debaixo do tapete. Então, só me resta aprender a reciclá-lo, dispondo da única ferramenta que possuo para isso: a memória! Sim, quem olha para trás, revirando antigas e ”acomodadas latas”, pode repartir ricas experiências com alguém. Ah, minha gente, disso eu estou bastante convencido!

            Há quem diga que tudo nesta vida é muito relativo. Uma “verdade”, se vista por outras lentes ou em outro momento, pode ser tomada de forma bem diferente. Nem melhor, nem pior: apenas diferente. Lá, isso é verdade. Uma vez, no auge de sua dor, um ente querido me disse: Certo eu não sei se você está, Carlos. Em quase todas as verdades que ouvi, houve sempre uma dose de mentira ou, pelo menos, de dúvida! Tinha ele razão, amigos. Basta uma rápida olhada na trajetória de qualquer um de nós e encontraremos exemplos aos borbotões. Representados em gestos e sentimentos que denunciam mentiras ou manobras. Incorporados a posturas que, no fundo, tentam apenas aplacar reiteradas culpas... Pois é: ironicamente, herda-se tudo!

            Aonde você quer chegar com tudo isso, Carlos? - indagarão os leitores impacientes. Calma aí, minha gente, eu conto. É que um dia desses, eu bati os olhos neste belo filme: A sombra e a escuridão. Aparentemente, é só um filme de aventura. Divertido e inocente. Apenas isso. De certa forma, não deixa de ser. Mas, alguma coisa em especial chamou-me a atenção nesta história... E demorei a atinar. Somente quando revi o filme, esta semana, é que me “caiu a ficha”. Descobri, então, que os leões que aterrorizavam a pacata vila africana representavam bem mais do que dois temidos animais. Encarnavam, isso sim, as principais emoções que tanto nos incomodam ou perseguem: angústia e medo. E elas, a angústia e o medo, são como “a sombra e a escuridão” do filme a rondar os labirintos da nossa alma conflitada. Impiedosamente.

            No filme, o intrépido caçador estabelece com os animais que estão a atacar a vila, respeito e repúdio. Ao mesmo tempo. Pois ao reconhecer a pujança do oponente, o caçador se vê forçado a encarar o desafio. E, tanto quanto possível, ele só consegue desenhar o seu destino quando se vê acuado pelas feras. Sendo assim, ele arregaça as mangas e vai à luta! O que menos importa é o desfecho da “batalha”. Podemos perceber, também, que a história, tanto do filme quanto da vida, tem lá as suas manhas, tem lá os seus percursos. E, muitas vezes, um alto preço a pagar... Antes de morrer, ferido por um dos leões, o caçador confidenciou ao amigo engenheiro: Quando eu era menino, havia um brutamonte na cidade. Aterrorizava todo mundo. Mas ele, não era nada. Tinha um irmão pior ainda. Mas, também não era nada. O problema era quando estavam juntos. Sozinhos, eram só brutamontes. Juntos, eram mortíferos. O amigo, então, indaga: O que aconteceu com eles? E o caçador, soberbamente, responde: Bem... eu cresci!

            Foi neste exato momento do filme que parei o disco para tomar um gostoso cafezinho. O diálogo dos dois amigos, no entanto, não me saía da cabeça. Enquanto fervia a água e preparava o bule, eu comecei a me dar conta de como o processo de crescimento é difícil. Doloroso, até. Ah, minha gente, tem vezes que dá vontade de desistir e de pedir o “colo materno”, na esperança do acalento. Mas, logo a seguir, percebemos que “navegar é preciso”, pois, como dizem: a vida tem que seguir o seu inexorável rumo, cumprindo a sua sentença! Diacho, mas onde está escrito isto?! Afinal, qual será o meu destino? Qual será o seu, amigo leitor? É... pelo visto, vamos ter que pagar o irremediável pedágio para descobrir. E mais ainda: vamos ter que crescer. Com ou sem medo. Com ou sem angústia. Nada disso impede. Até porque, convenhamos, a própria vida vai nos dando coragem. E ao nos empurrar pelos becos e esquinas, ela acaba nos dando a grande chance de aprender a “soletrar o mundo” de forma correta. Para que o infortúnio de Drummond não nos bata de forma tão dura: Quarenta anos e nenhum problema resolvido / sequer colocado. / Nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres, mas levam jornais / e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

            Passados tantos anos, eu agora sou sabedor de que há “verdades e mentiras” em todas as histórias. Inclusive na minha. Não culpo ninguém por isso, minha gente. É da vida. Ao menos, dela faz parte. Não obstante, eu gostaria de declarar: tomara que o meu querido filho Gabriel tenha melhor sorte e não repita alguns “modelos” que não deram certo. Tomara!

            No filme, o engenheiro consegue, às duras penas, construir a sua ponte. Finalmente. Da mesma forma, também precisamos “construir” as nossas. O diabo é que a gente não acredita que por um “pequeno erro de cálculo”, a ponte pode desmoronar. Assim como as nossas emoções fazem, todas as vezes que “erramos nos cálculos afetivos”. Só que no nosso caso, diferentemente das réguas, esquadros e calculadoras de que eles fazem uso, precisamos mesmo é da “verdade”. Muitas! Tantas quanto for possível. Verdades que apontem os legítimos sentimentos presentes em cada momento de nossas vidas, sejam eles quais forem. Verdades que consigam redimir até mesmo os nossos enganos ou dúvidas, pois não se adquire imunidades contra isso. Dessa forma, ninguém mais terá o direito de reclamar condutas e as heranças de cada um serão sempre aquelas pertinentes. Quanto mais ricas e verdadeiramente afetivas, melhor!

            Os leões do filme tiveram os destinos que puderam ou mereceram. Não mais aterrorizam. Não matam mais ninguém inocente. Já os leões que estão na vida... ah, amigos... esses continuam devoradores e fazendo sucessivas vítimas ou estragos. Entretanto, o que é preciso não é se tornar “caçador”. Bem mais do que isto, o importante é aprender a “expurgar” os leões que estão escondidos dentro de nós. Para sempre! Pois os de fora, arre, são até “banguelas” e fáceis de lidar. Há até quem garanta: “sossega, que o leão é manso!”